
Quando estava ainda no segundo ano do Ensino Médio, recebi uma oferta de meia bolsa para cursar o pré-vestibular no Colégio Geo. Do fundo do meu coração, não queria ir. Durante toda a minha vida, havia estudado no Irmã Maria Montenegro. Meus amigos e professores estavam lá. Não me importava nem a suposta melhor qualidade de ensino do Geo; para mim, meu lugar era onde sempre estivera.
Mas a situação financeira do meu pai pedia que eu aceitasse a proposta. Na segunda-feira que iniciou o ano letivo de 1999, fui estudar no novo colégio. Fiquei no Geo.
Por apenas quatro dias.
Exatamente. Retornei para o Irmã Maria depois de apenas quatro dias. Minha mãe e minha tia, preocupadas com a tristeza em que eu me encontrava, resolveram interceder. Minha tia conversou com a diretora do Irmã Maria, que me conhecia desde criança, e que acabou por me conceder o mesmo desconto que o Geo ofecera.
Voltei na sexta para o Irmã Maria com um sentimento de fracasso. O pensamento que me vinha constantemente era o de que não fora capaz sequer de mudar de colégio. Era fato que havia ficado muito triste nos três primeiros dias na escola nova; no entanto, as coisas haviam começado a melhorar na quinta-feira, dia que ignorava ser o último por lá.
Recentemente me peguei pensando em como minha vida poderia ser diferente se tivesse permanecido no Geo. Talvez lá eu nunca fosse uma das melhores alunas da sala, e isso contribuiria para minar minha busca por essa perfeição ou esse pedestal que não existem. Talvez houvesse feito muitos outros amigos, e um deles tivesse sido meu primeiro namorado. Talvez viesse a acreditar mais em mim por ter vencido um desafio, e esse medo paralisante que sinto às vezes não fosse mais um problema. Tantas coisas poderiam ser diferentes.
O que quero mostrar com essa história?
Que deixar um filho sofrer pode ser a melhor coisa que um pai pode fazer por ele. Talvez isso pareça absurdo, sádico ou irresponsável, mas não o é. O preço de sempre proteger um filho das dificuldades da vida é torná-lo inapto para ela. Como venho descobrindo, invariavelmente quem paga esse preço é o filho.
A questão é que encaramos sofrimento como algo a ser evitado a todo custo, como se nada de bom pudesse nascer dele. Podemos afirmar isso de um sofrimento desnecessário, causado por apego, medo, masoquismo ou qualquer outra causa egoica. O mesmo raciocínio não pode ser aplicado ao sofrimento que é componente da condição humana. É impossível viver sem experimentar perdas, e, se elas existem, é porque ganhos também advirão delas. Nesse aspecto, sofrimento é pressuposto de crescimento.
Sobre isso, gostaria de compartilhar este trecho do livro
Um novo mundo: o despertar de uma nova consciência, de Eckhart Tolle:
Se você tem filhos pequenos, ofereça-lhes toda a ajuda, orientação e proteção que estiver ao seu alcance. Contudo, mais importante ainda é: dê-lhes espaço - espaço para que possam existir. Você os trouxe ao mundo, mas eles não são "seus". A crença "Eu sei o que é melhor para você" pode ser adequada quando as crianças são muito pequenas; porém, à medida que elas crescem, essa idéia vai deixando de ser verdadeira. Quanto mais expectativas você tiver em relação ao rumo que a vida delas deve tomar, mais estará sendo guiado pela sua mente em vez de estar presente para elas. No fim das contas, seus filhos cometerão erros e sentirão algum tipo de sofrimento, assim como acontece com todos os seres humanos. Na realidade, talvez eles estejam equivocados apenas do seu ponto de vista. O que você considera um erro pode ser exatamente aquilo que seus filhos precisam fazer ou sentir. Proporcione o máximo de ajuda e orientação, porém entenda que às vezes você terá que permitir que eles falhem, sobretudo quando estiverem se tornando adultos. Pode ser que às vezes você também tenha que deixá-los sofrer. A dor pode surgir na vida deles de repente ou como uma conseqüência dos seus próprios erros. (p. 92)
Hoje, revi
Pequena Miss Sunshine com uma amiga. Há uma cena em que o irmão de Olive (a garotinha) implora para a mãe impedi-la de subir ao palco. Diz que as pessoas vão rir de Olive e que a mãe tem obrigação de protegê-la. A mãe, mesmo apreensiva, escolhe deixar Olive decidir. Para o irmão diz, "Eu sei que quer protegê-la, mas temos de deixar Olive ser Olive". Para a filha, esclarece que, se quiser desistir, não há problema, pois todos já estão orgulhosos dela. Olive decide ir. E então começa o trecho mais engraçado do filme.
Que tenhamos a coragem dessa mãe. Sei que não é fácil. Aliás, dado que não sou mãe, é mais apropriado dizer que nem sei quão difícil deve ser. Mas trata-se de um aprendizado por que pais e filhos devem passar.
À minha tia, que sei que visita o
Reflexos de vez em quando, digo que não a culpo. Sei que agiu por amor e com a melhor das intenções. Beijo, tia.