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terça-feira, 6 de março de 2012

"A chave de casa" e "Dois rios" de Tatiana Salem Levy


Vez e outra, percebo que vejo as coisas na contramão dos outros. Com A chave de casa, primeiro livro da escritora Tatiana Salem Levy, me senti assim. Depois que o terminei, ao pesquisar um pouco sobre a autora e a obra, entendi que o livro era "sobre" a busca de uma identidade cultural. Com isso, me dei conta de que o que poderia ser considerado principal na obra foi o que vi de mais secundário.

Porque, para mim, o que sobressaia era a relação da protagonista com ela própria, com sua mãe e com o homem na sua vida. Meu olhar perdeu o macro e se fixou no micro. A chave que a protagonista recebe de seu avô e que, supostamente, a leva à Turquia em busca da reconciliação com o passado de sua família se tornou pano de fundo na minha leitura. Por outro lado, me parece que a riqueza do livro se encontra nos diálogos que a protagonista imagina com a mãe falecida, na sua tentativa de vencer a perspectiva negra que tem sobre as coisa, no desenrolar trágico de seu relacionamento.

O genial na obra é que cada elemento desse (além de outros) é explorado em uma linha narrativa própria, de modo que histórias são contadas paralelamente. Ao contrário do que se possa pensar, o leitor não se perde em meio a tantas vozes, e isso se dá graças à escrita de Tatiana. Sabemos onde estamos graças aos fatos narrados, mas também às escolhas linguísticas da autora.





Em Dois rios, a autora explora o "e se" a partir da história de dois irmãos gêmeos, Joana e Antônio, e o encontro deles com a francesa Marie-Ange. Depois de uma perda significativa na infância, os irmãos desenvolveram formas diametralmente opostas em lidar com a vida. Um se torna o inverso do outro. Marie-Ange é a oportunidade de libertação de um e reconciliação de outro. E a obra, que me lembrou On Chesil Beach de Ian McEwan nesse aspecto, mostra como o silêncio pode minar as relações.

A chave de casa me parece um livro mais vertical e lírico do que Dois rios. Gostei mais daquele do que deste, mas isso pode ser decorrente daquela questão do "primeiro livro": o primeiro livro que leio de um autor sempre me marca. No caso da Tatiana Salem Levy, coincidiu que o meu primeiro é o primeiro dela, rs. De resto, só me ocorre ainda falar de um aspecto em comum que me tocou: a inadequação da protagonista das duas obras em estar no mundo, seja pela incapacidade de ser feliz, seja pelo apego à redoma em que vive.

Parece familiar? ;o)


domingo, 26 de dezembro de 2010

Transatlântico de Mariana Marques


A experiência de ler Transatlântico foi legal antes mesmo de começar. Entrei na livraria, procurei a moça e perguntei:

- Tu tem o Transatlântico da Mariana Marques?

Enquanto a moça procurava o livro e pesquisava o preço, repeti para os meus botões a frase e sorri. Taí uma pergunta que gostei de fazer. É que Mariana e eu estudamos juntas da segunda à sexta série (se a memória não falha) no Irmã Maria Montenegro. Nunca me passou pela cabeça que, um dia, estaria na Café & Letras comprando um livro dela.

Transatlântico é pequeno e poderoso. Confesso que precisei relê-lo. Não sei se foi a pressa de ver o todo, de saber tudo o que a Mariana tinha escrito, mas a primeira leitura me deixou suspensa. Depois, refolheando, achei o chão e entendi. Então, o que já tinha percebido de lampejo, a beleza da escrita, ficou mais marcante. Depois captei a inteligência por trás da composição do livro. E aí me diverti com os acenos à Fortaleza, que deram sabor de verdadeiro ao Transatlântico.

A Mari tem também um blog, o Beautifro. Lá a gente encontra moda, humor e mais escrita bonita. Da moda, deixo aí o link para clicar e ver. Do humor, colo aqui uma tirada que me fez rir muito. A Mari escreveu sobre um livro de boas maneiras bem antigo. Havia uma seção sobre o comportamento das crianças, e ela transcreveu o seguinte trecho:
- É falta de educação carregar varinhas na mão e bater com elas ou dar pontapés em tudo o que encontra na rua.
Para depois comentar:
E agora, Harry Potter?

(para ler na íntegra, acessar Mil Regras Ilustradas de Boas Maneiras)
Por fim, da escrita bonita, transcrevo um dos trechos mais belos que li recentemente:
Hoje vi dúzias de pés de acácias pela Aldeota, todas abarrotadas de manchas amarelas em forma de flor.

(para ler na íntegra, acessar Um pouco de vida na jardineira).
Lindo, não?

quarta-feira, 11 de agosto de 2010

Um novo mundo: o despertar de uma nova consciência

Terminei esse livro neste sábado e estou me preparando para relê-lo. O motivo para isso é que se trata de um livro profundo e transformador na proporção em que se está aberto para ele. Como temos várias camadas, quero estabelecer um novo diálogo com a obra. Gostaria de ver se ela fala mais fundo para mim.

Recomendo muitíssimo essa leitura a todos, mas aceito a possibilidade de que nem todos serão tocados por ela. É que o autor Eckhart Tolle fala de coisas que podem ser estranhas para quem não tem contato com essa forma de viver o mundo de que tratam os chamados "mestres espirituais". Por exemplo, reconhecer que eu não sou meu pensamento, que sou a consciência que serve de pano de fundo para ele, é uma noção no mínimo inédita para muitas pessoas. E pode ser que não seja visível para elas o benefício que se colhe ao se ter o reconhecimento desse fato. No entanto, se alguém sente a necessidade de mudar de paradigma, deve começar de algum lugar, e esse O despertar de uma nova consciência pode ser o ponto de partida, nem que depois seja também um ponto de retorno.

No livro, Eckhart Tolle trata do ego (o "eu mental"), dos papéis que representamos inclusive quando somos pais, da necessidade de estarmos conscientes do ego para diminuí-lo, do exercício em aceitar essa diminuição do "eu-mental", do sofrimento como porta para essa redução (desde que seja sofrimento consciente), da importância de estarmos presentes no momento e como essa condição de presença nos permite estar alinhados com o que somos verdadeiramente. Na realidade, ele fala de muito, muito mais coisas, inclusive sobre ego coletivo e corpo de dor, mas escolhi dar destaque aos tópicos que me foram mais importantes atualmente.

Devo confessar apenas que prefiro o subtítulo ao título da obra. Por mais que Um novo mundo seja contextualizado no capítulo inicial e entendamos por que o autor se utiliza desses termos, o nome confere um ar meio profético ao livro. Acrescente-se o fato de que é vendido sob a categoria autoajuda e pronto! o ceticismo de muitos é ativado, inclusive o meu. Não se deixem desestimular. A leitura é realmente mais profunda do que a de livros tradicionais de autoajuda, e, se seu intelecto precisa de convencimento, Eckhart Tolle foi formado pela Universidade de Londres e foi pesquisador e supervisor de pesquisas da Universidade de Cambridge antes de se tornar mestre espiritual. Em outras palavras, ele não era qualquer um, rs.

A sinopse de O despertar de uma nova consciência pode ser acessada aqui.

p.s.: A Lu criou o apelido, e eu aderi. Chamamos carinhosamente o Eckhart Tolle de duendinho. Se vocês virem a foto dele ou assistirem a algum vídeo no YouTube, entenderão o motivo. ;o)

segunda-feira, 14 de junho de 2010

Comer, rezar, amar


O livro não é novo, mas só agora o li. E gostei muito.

Essa é uma das histórias que, se eu fosse recontar, daria um ótimo causo para o aconteceu na vida real. O mais fascinante para mim nessa narrativa é saber que se trata de uma trajetória não-fictícia. O enredo é a vida de uma pessoa de carne e osso, que tenta se soerguer e se equilibrar perante as adversidades como qualquer um de nós.

Para quem não conhece a obra, em Comer, rezar, amar, a autora Elizabeth Gilbert narra sua busca por si mesma enquanto vive na Itália, Índia e Indonésia. Depois de um divórcio desastroso, ela parte para outros continentes à procura de prazer (Itália), Deus (Índia) e equilíbrio (Bali).

Elizabeth tinha supostamente tudo o que uma mulher moderna poderia desejar: sua carreira, um casamento e posses. No entanto, quando chega o momento de tentar engravidar - porque essa é mais uma das "metas" de qualquer casal "bem sucedido" - descobre que não quer ter filhos e que deseja o divórcio. Essa foi a primeira questão de relevo para mim: nem sempre o que a maioria quer é o que você deseja.

Muitas amarguras advêm da decisão de separar-se. Elizabeth mergulha na depressão de tal modo que, uma noite, luta até o amanhecer contra o impulso de cortar os pulsos. A partir daí procura ajuda médica. Esse é o primeiro passo para se ajudar também.

Depois seguem as viagens e os relatos sobre a vida na Itália, na Índia e na Indonésia. Elizabeth sempre se preocupa em transmitir a história e o contexto atual do lugar em que está em cada momento. Particularmente, adorei a terceira parte do livro, que se passa em Bali. São crenças e costumes tão curiosos! E há um episódio muito tocante na Índia, em que Elizabeth faz seu próprio ritual de desapego para libertar-se da culpa que sentia pelo divórcio.

Confesso apenas que, em dado momento do livro, tive de desconstruir uma impressão que se formou e que quase estragou meu prazer em lê-lo. O discurso da autora começou a me parecer auto-ajuda demais. Via as palavras de Elizabeth como se ela usasse suas experiências para licenciar "ensinamentos" sobre o que fazer para ser feliz. Tive de parar e refletir que, na verdade, talvez aquilo estivesse lá muito mais para lembrá-la do que aprendeu do que para ensinar. Aliás, Elizabeth se revela tão falível e vulnerável que dificilmente pode servir de propaganda de si mesma. Sua melhor publicidade se encontra nos acontecimentos que desencadeia toda vez que vence suas dificuldades e padrões. É prova de que o primeiro passo sempre tem de ser seu (nosso).

quarta-feira, 5 de maio de 2010

Quando o Irã censura uma história de amor


Tive um professor de redação que desaconselhava o emprego do adjetivo "interessante". Dizia que nada é mais vago do que um "interessante". Para ilustrar, encenava um diálogo quase assim:
- Que tal o filme, professor?
- É... interessante.
E perguntava: afinal, "interessante" é bom ou ruim?

Não sei. Vai ver que é os dois. Vai ver que não precisa ser nem um nem outro. Só sei que o adjetivo se aplica muito bem para resumir minha opinião sobre o livro Quando o Irã censura uma história de amor, de Shahriar Mandanipour.

Esse foi o primeiro livro que li em 2010. Terminei em janeiro e fiquei sem rumo para escrever um post sobre ele. Acessei hoje o site do autor e vi excertos de várias resenhas deslumbradas com a obra. Do que concluo que o problema sou eu e minhas limitações, aparentemente. Ou talvez seja só aquela velha questão de gosto, que ninguém deveria mesmo perder tempo em discutir.

Minha questão com o livro é bem simples e infantil: tenho um pouco de dificuldade em aceitar os elementos fantásticos que estão presentes na obra. Simplesmente não combinamos, o fantástico e eu. E desconfio que a culpa é toda minha. Tenho uma leitura literal demais das coisas e acabo perdendo o significado do simbolismo que está ali.

Limitações literárias (cognitivas?) à parte, apreciei a forma inteligente como o livro foi escrito e a própria ideia que o gerou. Sem falar que é um mergulho inédito e bem humorado, na maioria das vezes, na cultura e dia-a-dia iranianos. O autor relata fatos curiosíssimos e absurdos, dos quais me lembro particularmente da proibição do uso de gravatas no vestuário masculino, uma vez que apontam para a área dos genitais.

Enfim, um livro interessante.

terça-feira, 31 de março de 2009

Rise and Shine

O livro gira em torno da vida de duas irmãs de personalidades radicalmente distintas. Bridget, a mais nova, é assistente social e tem um desses namoros despojados com um cara bem mais velho. Meghan é uma apresentadora de TV influente, casada e mãe de um filho. As duas estão presas em papéis que elas próprias escolheram e deixaram que as circunstâncias os perpetuassem.

Em uma manhã de segunda-feira, Meghan comete um erro grave enquanto apresenta seu programa Rise and Shine. A partir daí, eventos se desencadeiam e ameaçam o mundo das duas irmãs.



Posso dizer que gostei muito desse livro, cuja autora é Anna Quindlen. Ele é anunciado como um bestseller, mas aparentemente todos os livros são bestsellers nos Estados Unidos, então isso não assegura uma boa leitura. Meus motivos para arriscar a recomendar esse romance são os que seguem abaixo.

Primeiramente, acho que Anna Quindlen é uma escritora inteligente. Adorei seu trabalho não porque a autora experimenta com a linguagem ou algo do gênero. Apreciei-o porque sua prosa é enxuta, e principalmente porque Quindlen tem ideias originais ao descrever uma personagem ou ao comentar um costume e utiliza-se de uma linguagem sem adornos para isso.

Outro aspecto de valor no livro é que as personagens parecem ser de carne e osso em razão da maneira honesta como são retratadas. A maioria delas é cativante.

Penso que esse é o primeiro livro que li de uma autora americana não-canônica que realmente apresenta crítica social. Claro que isso não quer dizer nada em face dos poucos outros livros que li até hoje, mas é que se tornou comum nesse gênero de romance ver algum resenhista declarar algo do tipo "fulana critica a sociedade nova iorquina com humor impiedoso e blá blá blá". Há comentários assim acerca de The Devil Wears Prada e Sex and the City. Se existe crítica nessas obras, então Rise and Shine é um tratado sobre a sociedade de Nova York. Isso configura um exagero de minha parte, é claro. Mas assim o faço para ressaltar que, em Rise and Shine, há o que considero crítica social. Foi por meio desse livro que descobri a desigualdade social em Nova York, que confirmei, a partir de uma autora norteamericana, a hipocrisia da sociedade, das emissoras de TV e do órgão que as supervisiona.

No entanto, como nada é perfeito, Rise and Shine teve lá suas falhas no meu humilíssimo ponto de vista que, a despeito de uma formação em Letras, é leigo. Enquanto lia, percebi que minha leitura simplesmente não fluía. Atribuo isso a uma certa prolixidade da autora. Não é que Quindlen utilize mais palavras do que deve, mas é que apresenta ao leitor mais do que se espera. A escritora empregou uma estrutura que se repete em muitos capítulos: há frequentemente uma rememoração de um evento ou uma exposição de um posicionamento da narradora (Bridget) antes de os fatos pertinentes àquele capítulo se desenrolarem em meio a mais algumas digressões. Da metade do livro para o final, eu já pensava "Ai, que saco."

Defeito à parte, acho que Rise and Shine vale a pena. Tentei encontrar alguma frase que mostrasse a criatividade de Quindlen, mas é claro que agora folheio e folheio e não acho. Por outro lado, havia dobrado a pontinha da página 203 (Garota_D não me mate!) porque há uma verdade contundente que Bridget anuncia neste diálogo com Meghan:
"There's something so satisfying," Meghan said, "about living a life like this. You get up and you run a couple of miles. You come home and you eat. There are three bathing suits, and you put one on. There are three pairs of shorts, and you change into one of them. There are ten books, and you choose one. You read, you swim, you eat, you drink. You sleep. No one needs you to do more. Maybe that was her [mãe da Meghan e da Bridget] deal."
"Except for one thing. She had children. Two daughters."

"Maybe she thought we didn't need her. Maybe she thought we had lives of our own and we didn't need her."

"Are you nuts? We were little kids. Of course we needed her."
"Did we? We were at school. Nelly made our meals. What did we need her to do?"

"You don't need a mother to do anything.
A mother doesn't prove anything by being there. She proves something by not being there!" (grifei)

sábado, 21 de março de 2009

A Version of the Truth


O comentário estampado na capa do livro (que não apareceu aí na foto) define: "It's the Devil Wears Prada meets Walden Pond." Li o Diabo veste Prada quando o filme foi lançado. Walden Pond é o lugar que inspirou Thoreau a escrever Walden (o que seria de mim sem Google e Wikipedia), que não li. Walden, porém, é citado várias vezes em A Version of the Truth e, mesmo sem Google ou Wikipedia, descobrimos que a obra tem a ver com a natureza e o homem.

Há, de fato, um ponto em comum entre A Version of the Truth e The Devil Wears Prada. Ambos se baseiam na fábula do patinho feio que vira cisne. No entanto, a grande diferença que existe e que contribui para a superioridade de A Version of the Truth diz respeito à natureza da transformação que se opera em sua protagonista. A Cassie Shaw de A Version... se transforma de dentro para fora à medida que começa a investir em sua vida. A Andy Sachs de The Devil... se transmuta de fora para dentro ao trocar de visual e permitir que a insana rotina de trabalho dite sua vida.

O mais legal em Cassie Shaw é que ela é tudo o que sempre quis ser, mas sua baixa autoestima a impede de ver isso. Infelizmente, deixou os olhares e opiniões dos outros definirem sua imagem e chegou aos 30 correspondendo às expectativas dos terceiros em sua vida - expectativas que resultam em zero. Porém, a partir de um pequeno ato desonesto, Cassie desencadeia uma série de eventos que lhe permitirão descobrir o quanto é capaz.

O mais legal no livro é que as autoras, Jennifer Kaufman e Karen Mack, mantêm Cassie um ser falível mesmo quando a personagem está florescendo ou, em outras palavras, virando um cisne. Cassie segue em frente debatendo-se com a baixa autoestima e a autopiedade. E às vezes erra feio. Seu refúgio durante todo o livro e todas as crises se encontra na natureza que cerca sua casa.

Para mim, A Version of the Truth foi um ótimo passatempo. Gostei do senso de humor das autoras, de Cassie, do galã um pouquinho charmoso demais para ser real mas igualmente falível. É divertido ler uma obra contemporânea quando há referências ao nosso mundo. Ri ao ler o seguinte trecho:

"I take a two-minute shower and throw the clothes laid out last night - a plaid pleated skirt, a white blouse, a cardigan, a pair of Easy Spirit black loafers, and a leather purse I borrowed from my mother. I glance in the mirror. I look like I go to school with Harry Potter. But it's too late to change."

A sinopse da obra disponível no site é a seguinte:

Much like Eliza Doolittle in Pygmalion, Cassie has an unhappy past and is relegated to a life beneath her, but her spirit is uplifted in the outdoors. The eerie, ghostlike call of presumed extinct birds in a secret clearing, the sound of wind in the trees, the harmony of a world without people, all give Cassie a sense of calm. But everywhere else, life is tough. Her mother believes in Big Foot. Her wisecracking but beloved African Grey parrot is a drama queen. And at age thirty, a widow without a college degree, Cassie desperately needs to earn a living, which is why, against all her principles, she lies on her resumé for an office job at an elite university, making up facts about herself, creating the person she wants to be.

Her new boss is the magnetic Professor William Conner, an expert in animal behavior who recognizes the intelligence behind Cassie’s bogus resumé. Soon, under his charismatic tutelage, Cassie carefully begins her personal transformation, all the while still visiting her secret clearing and her strange, iconic birds. But her future is teetering on one unbearable truth, and Cassie’s masquerade is about to come undone--in a chain of events that will transform her life and the lives of those around her--forever.




domingo, 18 de janeiro de 2009

Marley & Eu e outros devaneios de fim de noite


Aparentemente, hoje é o dia para escrever sobre coisas não tão novas assim.

Terminei Marley & Eu agorinha. Acho que o livro deve ter um apelo especial para aqueles que são donos de animais, mas não há nada mais de marcante nele enquanto obra literária.

Por outro lado, enquanto história de vida, Marley & Eu é um testemunho de que o cotidiano de cada um de nós é tão rico quanto qualquer cânone da literatura. Há alguns meses, percebi o valor único de cada vida quando parei no meio do meu ambiente de trabalho e lembrei de confidências dos amigos que me rodeavam. Cada um de nós vivencia vários dramas internos, arquiva várias crônicas vividas, tem causos auto-estrelados para contar. Às vezes, imagino o que deve ser a profissão de um psicólogo - ter acesso a tantas vidas desnudas. Pode ser cansativo, mas deve ser intrigante.

Voltando ao livro, é claro que Marley me cativou, mas quem me ganhou de verdade foi John Grogan, o Eu do título. Se John Grogan é o que escreve, ele é gente muito boa. Bom marido, bom pai, bom dono de cão. Adorei a relação dele com a esposa, o amor pelos filhos, sua presença na vida deles, sua paciência e cuidado com Marley. Seus valores são simples, sólidos e bons. Seu novo livro, The Longest Trip Home, é um relato da sua vida a.M. (antes Marley), e desconfio que será minha nova aquisição.

Além de uma leve paixonite pelo autor, o livro me trouxe memórias do Fluf, meu cachorro que morreu em dezembro de 2007. Também comia as coisas mais inadequadas possíveis, desde sabão a borboletas vivas. Tinha o péssimo hábito de se esfregar em qualquer coisa mal cheirosa (lama, etc. etc. etc.) e depois vir com a cara mais sonsa do mundo querendo colo. No sítio da minha avó, adorava correr dentro do açude seco, embrenhava-se no capim alto e surgia aos saltos, ora aqui, ora ali. Na velhice, também ficou surdo, lento e cansado. Diferentemente de Marley, era pequeno, então eu podia carregá-lo quando voltávamos de alguma caminhada. Morreu antes de perder a visão, e por isso fui grata.

Animais de estimação são o tipo de posse que vem com prazo de vida útil. Ao adquirirmos um, sabemos que nos apegaremos a ele, que cuidaremos dele, e que um dia ele morrerá. É irremediável e simples assim. Depois que o Fluf morreu, cogitei não ter mais bichinho algum.

Uma frase no livro, porém, parece ser a moral da história para qualquer relacionamento com um bicho de estimação. É uma frase no livro, porque John Grogan somente repetiu o que o senso comum já ensina: o que vale é a jornada, não o destino. Hoje temos uma calopsita aqui em casa. O destino será a morte. A jornada é vê-la seguir a gente pelos cômodos, assoviar agudamente Atirei o pau no gato, emitir grunhidos que parecem "Bate o pé" e "Raquel", escorregar mechas do meu cabelo entre o bico, esticar-se do ombro do meu pai para se pendurar na armação dos óculos dele, beliscar nossos pés até que a coloquemos na mesa, de onde ela adora derrubar canetas.


Aliás, a frase é uma moral para nossa história de vida também. Quando estive em Teresópolis, um dia resolvi andar pela trilha que conduzia ao início da cachoeira que havia na propriedade. O amigo F. me acompanhou. Logo percebi a diferença no ritmo da nossa caminhada; embora ele tivesse as pernas bem maiores que as minhas, eu ia sempre à frente. Depois vi que ele parava constantemente para observar e comentar a flora, enquanto eu, de cabeça baixa, olhava apenas o chão que se estendia sob meus pés. Se não fosse F. me mostrar que eu tinha de aproveitar também o trajeto até chegar à cachoeira, eu teria seguido sem ver os bambus que ladeavam a trilha e se entrecruzavam acima de nós, um túnel improvisado pela natureza. E F. disse a mesma frase para mim, repetindo sem saber o que amigo H. tinha me dito dias antes.

O que vale é a jornada, não o destino. A jornada implica como chegamos ao destino. A jornada depende da pessoa que queremos ser e das escolhas que fazemos para alcançar esse modo de SER. A jornada significa viver o momento, um dia de cada vez. Venho refletindo que, no meu caso, a jornada mudará quando me destituir de certos reflexos que impedem a visão da coisa em si.

Mas isso é assunto meu e da minha analista.

Enfim, carpe diem.

p.s.
: John Grogan em http://www.johngroganbooks.com/index.cgi

quarta-feira, 14 de janeiro de 2009

On Chesil Beach

Esse foi o primeiro livro que li neste ano. A história de sua descoberta é bem simples. Em 2007, assisti ao Desejo e reparação, filme baseado na obra Atonement de Ian McEwan. Fascinada pela trama, comprei o livro, e nele havia o anúncio do trabalho seguinte, On Chesil Beach. Desde então, tentei sem sucesso encontrá-lo nas livrarias daqui. Cheguei a comprar o romance pelo site da Saraiva, mas passou o tempo hábil para postagem do produto e cancelei o pedido passado em brancas nuvens.

Aí descobri a Fnac.

E em uma estante da Fnac, havia um Chesil Beach à espera.

Virei fã de Ian McEwan. Quando era criança, sonhava em escrever um livro. Hoje minha principal desculpa para nem tentar é dizer que não tenho imaginação suficiente para compor uma história interessante, plena de eventos, transbordando de fatos e aventuras e emoções. No entanto, Ian McEwan me mostrou que basta um dia na vida de duas personagens para se escrever um romance. Nesse dia, não há mortes, guerras, vilões ou surpresas mirabolantes. Nesse dia, só existem dois recém-casados, virgens ainda, preparando-se para sua noite de núpcias enquanto desastrosamente alheios aos anseios e medos de cada um. Nesse dia, um drama mundano se desenvolve e envolve o leitor precisamente em virtude dessa despretensão de ser épico.

Enquanto lia, o que mais me chamava a atenção era a ausência de comunicação entre os noivos. Não é que não se falavam; simplesmente não falavam o que deveria ser dito. Pressupunham e interpretavam erradamente os gestos de cada um. O trágico é que isso se torna cômico. Cômico que retorna a ser trágico em virtude das consequências desses mal-entendidos. Trágico que se torna incômodo por causa do espelho que nos fornece de nossas próprias relações: afinal quem nunca presumiu e interpretou errado o que o outro queria? Incômodo que se transforma em trágico novamente, pois calar quando se deveria falar pode afetar o curso de uma vida inteira.

E no fim, o fim não é trágico. É apenas a vida, no sentido mais resignado de C'est la vie. Permanece somente um aviso sobre o preço que se paga ao não se lutar contra a inércia, ao se resistir contra um movimento que poderia salvar tudo ou alguma coisa naquele momento.

Mais tarde, descobri que o livro saiu em português com o título Na Praia. A sinopse que encontrei é a seguinte:

Inglaterra, 1962. As profundas mudanças na moral e no comportamento sexual que abalariam o mundo ao longo daquela década ainda estão em estado de gestação. Edward Mayhew e Florence Ponting, ambos virgens, se instalam num hotel na praia de Chesil, perto do Canal da Mancha, para celebrar sua noite de núpcias. Ele é um rapaz recém-formado em história, de origem provinciana; sua mãe tem problemas mentais, e o pai é professor secundário. A noiva é uma violinista promissora, líder de seu próprio quarteto de cordas, filha de um industrial e de uma professora universitária de Oxford. O desajeitado encontro íntimo desses dois jovens ainda marcados pelos resquícios da repressiva moral vitoriana é repleto de lances cômicos e comoventes, configurando uma autêntica tragicomédia de erros. Na praia, entretanto, vai além disso. Por conta da refinada arte narrativa de Ian McEwan, o drama dos recém-casados transcende o registro particular e o retrato de época para alcançar a dimensão de uma obra universal sobre o momento da perda da inocência, essa expulsão do paraíso que é um ponto de inflexão na vida de todo indivíduo.

A homepage do autor Ian McEwan pode ser acessada em http://www.ianmcewan.com/

Devaneio à la post scriptum.: Embora o evento principal seja a noite de núpcias, há flashbacks que revelam a formação de Florence e Edward. Será que me enganei ao ver indícios de que Florence foi vítima de uma relação incestuosa no passado?