terça-feira, 3 de agosto de 2010

Fechem os olhos


Foi o que o professor de teoria musical nos disse ontem na aula, para que pudéssemos nos concentrar melhor nas notas.

Zapt. Fechei os olhos, assim ó, rapidinho, sem reservas e sem medo. Me diverti com minha prontidão.

Por quê?, você pode perguntar. Por que conseguir fechar os olhos é uma coisa digna de nota?

Porque estávamos em um lugar público. Porque eu sempre tive dificuldade em fechar os olhos em lugar público. Batia um receio de que tivesse entendido errado, e aí só eu estaria com as pálpebras cerradas, pagando mico. Dava vontade de espiar para ver se estava todo mundo mesmo de olhos fechados. Sem falar que me achava levemente ridícula.

O evento de ontem se encaixa com a vontade que senti de escrever um post sobre quem eu era e sobre quem sou. Essa ideia me ocorreu ainda no Kyol Che, no entanto, como um dos princípios desse trabalho é não se perder no mundo dos pensamentos, deixei para lá. Quando voltei ao mundo aqui fora, com acesso a celular e internet, encontrei no meu Orkut um recado de um amigo do tempo de colégio, dizendo que dois outros amigos me procuravam no twitter e que ele havia passado o endereço do meu blog para eles.

Me perguntei se meus amigos estranhariam o que encontraram aqui. A Ana Raquel fazendo retiro de meditação? Fazendo Renascimento?

Houve um tempo em que descartei tudo o que abraço hoje. O engraçado é que nem me lembro mais como era. Só sei que não fazia parte dos meus hábitos meditar, acreditar que há uma Unicidade subjacente em nós e em tudo que existe, parar para sentir a manifestação das emoções no meu corpo.

Mas sabe o que é mais engraçado? Não disse que tinha pensado em escrever um post sobre quem eu era e quem eu sou? O engraçado é que esses "eu era" e "eu sou" não correspondem a quem sou de verdade, porque quem sou de verdade (minha essência) nunca mudou nem mudará. Esses "eu era" e "eu sou" constituem apenas ideias que construí sobre mim mesma, ideias que minha mente edificou para formar uma identidade, mas que, na verdade, são somente a soma de conceitos que só existem na dimensão mental. O problema de todos nós é que confundimos esse "eu" mental (ego - em um conceito que suponho ser diferente do da psicanálise) com quem realmente somos.

Quer ver? Pergunte-se a si mesmo quem você é. Se você disser seu nome, você não respondeu quem é, você só disse seu nome. Se você disser eu sou professor, sou advogado, você estatui sua profissão, e isso ainda não é você*. Se você se sair com sou pai, sou mãe, sou filho, você está relatando papéis que representa em relação a outras pessoas. Se você falar sou uma pessoa rancorosa, sou uma pessoa amorosa, você está repetindo conceitos de si mesmo, que provavelmente foram criados a partir da forma como você lida com as coisas no mundo, mas ainda sim são só conceitos.

Faça esse exercício. Vá dizendo tudo o que a mente lhe diz quando você se pergunta quem você é. Leve o tempo que levar. Quando você não encontrar mais nada a não ser um vazio, um silêncio na cabeça, por incrível que pareça, você terá encontrado quem você é. Quem nós somos de verdade não é exprimível em palavras. Quem somos de verdade apenas é.

Tudo isso pode parecer meio viagem, mas basta começar a praticar e a experienciar isso que as coisas parecem fazer sentido. O grande segredo é se desidentificar com todos esses pensamentos que mentem sobre quem você é ou com a "história de você mesmo" que seu ego criou. A resposta é fechar os olhos para essas autoimagens.

Viram?

Fechem os olhos.

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*Essa explicação pode ser vista em um DVD chamado From Science to God, de Peter Russel.

2 comentários:

Euclides Vega disse...

o fim do seu post, quando disse que as coisas são, lembrou-me um poema de Pessoa:
"(...)Das coisas que criou -
"Se é que as criou, do que duvido" -
"Ele diz, por exemplo, que os seres cantam a sua glória,
mas os seres não cantam nada,
se cantassem seriam cantores.
Os seres existem e mais nada,
E por isso se chamam seres".
(...)

Luciana disse...

Muito legal o post, Ana. Até parecia o nosso "duendinho" falando. ;-)