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segunda-feira, 16 de julho de 2012

Escolhas

 (Não, não é sequência de A loja de experiências. Este é um texto que ficou engavetado por muito tempo, mas que agora o presente me permite arrematar.)




Sentada na areia, observou o garotinho que se aproximava. Ultimamente percebia uma mudança. Sempre quisera uma menina: já havia escolhido até o nome. Se fosse menino, e ela nunca pensou que seria um, havia uma opção de que gostava, mas a cunhada se antecipara. Tinha de pensar em outro.

A criança chegou mais perto, mas ainda assim não soube adivinhar a idade dela. Qualquer coisa que dependesse dos seus olhos restava mal avaliada. Seu olhar era mais que míope para tantas coisas e detalhes. Parecia que sempre apreendia uma visão geral e inexata das coisas.

O menininho a alcançou e parou meio desconfiado. Ela usou seu melhor sorriso, mas ele ainda a espiava como se não entendesse. Quando acenou com os dedos, ele gargalhou, rodopiou e correu na ponta dos pés em direção aos pais, num desafio à gravidade que só as crianças sabem propor.

Percebeu a mudança de novo, a intuição de que o primeiro filho seria homem. Em regra, não acreditava em intuição. Recendia a palpite romantizado. No entanto, era bom sentir que acolhia também a possibilidade de um menino. E o nome?

Suspirou, levantou-se, sacudiu a areia da roupa e lançou a última olhada para o mar. Estava adiantando as coisas. Nem grávida estava, nem casada estava. Na realidade, nem feliz estava. Permanecia imobilizada num status quo de sentimentos que suspeitava não serem correspondidos pelo parceiro. Como o olhar era mais que míope, não enxergava o tamanho da desproporção que havia, mas sentia o vazio mal disfarçado do outro.

"Graça começou um novo caminho", Séfora anunciou sem palavras. As outras duas duvidaram do prognóstico. Graça costumava insistir teimosamente. Devia ser aquele olhar meio míope.

"Você diz isso porque ela se sente triste? Ela nunca desistiu por causa disso", questionou Sílfide enquanto observava inúmeros fios etéreos enlaçarem-se e desenlaçarem-se. A todo momento, milhões de humanos faziam escolhas que transformavam suas vidas. Cada opção descartada era um fio que se desembaraçava de uns para se juntar a outros. Cada nova possibilidade era um fio em um novo arranjo. Ali, num lugar que não era espaço, vidas se constituíam continuamente, e a dança dos fios mostrava os caminhos que seriam trilhados.

"Ela pressentiu que o primeiro filho será homem. Isso não faz parte do caminho atual", retorquiu Séfora. "Essa possibilidade só é tangível se ela abandonar o caminho atual. Está em outro fio."

"O parceiro dela também mudou de caminho", observou Sofia. Apontou com o dedo de estrelas. Um fio se desvinculava de outro, que estremeceu, estremeceu, e depois se imobilizou.

"Parece que Graça finalmente desistiu", sorriu Séfora, e os dentes eram sóis.

O fato inédito estancou as três momentaneamente, suspensas na curiosidade de como Graça procederia.

Quatro fios se aproximaram como se para formar um novo arranjo. Ondulavam cheios de promessas, mas nenhum se cingiu a outro.

"Ah, que bom. Ela percebeu. Ela reencontrou o poder de seguir sozinha," observou Sofia.

Lentamente outros fios se juntaram aos quatro, mas também não se uniram. Resplandeciam de possibilidades. Sílfide aprovou. "Vejam só quantos caminhos. Que pontencialidade."

É nessas horas que a Existência se encanta consigo. Vida é bonita demais, as três sabem. Entendem a beleza da vontade e o palpitar da superação. A prova é esse reluzir de segundas e terceiras e enésimas chances de felicidade.

Oniscientes, Séfora, Sílfide e Sofia captaram o nascimento de uma mudança.

Em algum lugar que era espaço, uma decisão tomada.

Um fio enlaçou outros dois, como se um único intento se houvesse cumprido.

Os dois fios se aproximaram.

"Olha, olha a serenidade dela. Olha as escolhas feitas pelos motivos certos. Pela verdade de si mesma," admirou-se Sofia.

Os dois fios se entrelaçaram. Um novo caminho constituído, que pincelou um sorriso de aprovação nas três e fez o cosmos cintilar milionesimamente.

Num lugar que era espaço, no tempo dos mortais, Graça segurava a mão de alguém, sentindo a novidade da situação. Sentados à beira de uma lagoa, olhavam o ondular das águas, quando ela confidenciou:

"Você era tudo o que eu queria."

Ele respondeu:

"Você era tudo o que eu precisava."

E o Universo ensinou-lhes o significado da leveza de ser dois.



Obs.: Séfora, Sílfide e Sofia foram inspiradas nas Moiras da mitologia grega, mas preferi não utilizar essas personagens míticas porque me pareceram bem sinistras, rs. Então somente aproveitei a ideia dos fios e das deusas... e como vocês podem ver, Séfora, Sílfide e Sofia, ao contrário das Moiras, não intervêm na vida dos humanos. Isso fica mais próximo também de qualquer conceito que o meu ceticismo possa ter de divindade.

sexta-feira, 6 de julho de 2012

A loja de experiências (parte II)

(parte I aqui)

(continuando...)




Um frasquinho guardava uma nuvenzinha tão vermelha e nervosa que chamou sua atenção. Ficou na ponta dos pés para ler a etiqueta:

Experiência 127846

X relata sua conduta em um ambiente de trabalho hostil e de que como foi traída por pessoas em que confiava. Motivo indicado por X para a venda desta experiência: “Quero que as pessoas aprendam a não ser ingênua como fui e que consigam vencer na vida.”

Especulou se o fornecedor dessa experiência conseguiu afinal vencer na vida. Aquela era uma lição provida por alguém que amarga derrotas até hoje ou que colhe os frutos do seu aprendizado?

Sentiu um certo incômodo e o lampejo de um pensamento por demais fugaz para se fazer concreto em sua mente. Restou a certeza de que era uma dúvida sobre o que viera fazer ali, mas o raciocínio se perdeu antes de tornar-se claro.

A terceira etiqueta que leu falava de como o fornecedor enfrentara a morte de um ente querido. Essa lhe pareceu mais útil. A inevitabilidade da morte assegurava que aquela era uma experiência válida de ser experimentada por mais desagradável que fosse. Desistiu, no entanto, quando estendeu a mão para pegar o frasco em que a fumaça negra era quase líquida. Não parecia certo comprar essa experiência. Havia um motivo por trás dessa hesitação, mas não soube precisá-lo porque de novo o pensamento lhe escapara antes de totalmente formulado.  

Algumas etiquetas depois, percebeu que não vira ainda alguma experiência boa, feliz e salutar para vender. Havia desilusões amorosas, decepções, conflitos familiares. Aos montes. Colocou as mãos na cintura e balançou a cabeça. Sentia-se ligeiramente frustrada.

– E aí? Já escolheu o que vai levar?

Era a moça que tinha voltado e que a aguardava com um ar também ligeiramente impaciente.

– Não tem nenhuma experiência alegre? – perguntou sem esperanças.

– Bom, tem aquela ali.

A moça apontou para um frasco que ficava na prateleira mais próxima ao chão, perto da porta de saída. Dentro dele, uma fumacinha dourada cintilava.

– Ah, finalmente um raio de luz em meio às trevas – brincou sério enquanto se agachava para ler a etiqueta.

Experiência 561493

X relata certos obstáculos que enfrentou e venceu. Motivo indicado por X para a venda desta experiência: “Quero mostrar que somos responsáveis pelas dádivas que recebemos na vida.”

O lampejo de novo, mas desta vez agarrou o pensamento antes que fosse, e ele tomou forma e fez sentido. Não adiantava comprar aquelas experiências em busca de sapiência e fuga da dor cotidiana. Em primeiro lugar, nada garantia que não cometesse os mesmos erros que os fornecedores caso deparasse com alguma situação semelhante. A equação era até simples: ela era diferente daquelas pessoas, logo não carregava consigo as mesmas variáveis que influenciaram nas escolhas que os fornecedores fizeram – ou que continuavam a fazer, mesmo depois de engarrafar suas memórias e sentimentos. Quem poderia assegurar que os fornecedores aprenderam com seus erros? Quem poderia assegurar que ela aprenderia? Pelo modo como apresentavam seus motivos para a venda das experiências, todos pareciam derrotados que se esforçam para revelar erros em batalhas que desistiram de travar. 

Todos exceto o fornecedor da única experiência alegre.

Em segundo lugar, talvez nada substituísse o valor de uma experiência unicamente sua. Ou talvez nada acolchoasse golpes inevitáveis da vida tais como a morte. Talvez erros devessem ser cometidos. Talvez todos tivessem de aprender a conviver com uma ausência. Ninguém ali incentivava os compradores a realmente viver.

Ninguém exceto o fornecedor da única experiência alegre.

Ninguém exceto o fornecedor da única experiência alegre e ela.

– Eu decidi o que eu quero – anunciou à moça.

– Você vai levar essa aí? – indagou a moça enquanto se aproximava da prateleira perto da porta.

­– Não. Quero vender a minha experiência de ter vindo aqui hoje.

Sentiu uma enorme satisfação em ver a moça atônita.

– Eu posso vender, não posso? – perguntou doce e sonsamente.

­– Claro, claro – respondeu a moça enquanto se encaminhava para um minúsculo balcão no canto da salinha. – A senhora vai preencher primeiro uma ficha dizendo por que a senhora quer vender essa experiência. Depois a senhora me acompanha ali pra dentro e a gente faz o procedimento e descreve a experiência para constar na etiqueta – explicou a moça ao vasculhar uma gaveta, achar um bloquinho de papel e destacar uma folha. 

– Aqui está – a moça foi solícita e entregou uma caneta juntamente com a ficha.

– Obrigada – disse enquanto preenchia o campo indicado entre aspas.

Motivo indicado por X para a venda desta experiência:

“Quero que as pessoas vivam.”

E seguiu a moça para além da outra porta do recinto. 



Obs.: Prontinho! Agora é colocar a cachola pra funcionar e revisitar a loja de experiências. Bora ver se o texto sai logo, né? :o)

quinta-feira, 5 de julho de 2012

A loja de experiências (parte I)


Finalmente encontrara o número 36 da travessa Michelin, invisível até no Google Maps. Receou tocar a campainha porque não encontrou placa alguma que anunciasse a loja procurada, mas, a bem da verdade, o produto comercializado era absurdamente incomum para ser compreensivelmente resumido em um nome ou frase. Afinal, quem entraria em uma casa onde se lesse “Vendem-se experiências”?

Uma pessoa que viveu eternamente dentro de uma redoma, respondeu a si mesma e absolutamente consciente de que era ela o espécime em questão. Um sorriso de autodepreciação acompanhou o movimento de pressionar o interruptor. Um segundo antes de a porta abrir-se, percebeu que não sabia sequer como perguntar se aquele realmente era o lugar.

Inquietação inútil, porque a moça que acabara de girar a maçaneta e de oferecer-lhe a visão de um cômodo cheio de prateleiras com frasquinhos de geleia, perguntou solícita se ela estava ali para comprar experiências.

– É.

­– Pode entrar. Fique à vontade.

Ela sorriu apertado e ajustou a alça da bolsa que trazia a tiracolo. Enquanto a moça fechava a porta, percebeu que os recipientes não continham geleia, mas uma névoa que se distinguia em cor e densidade em todos os potinhos que seus olhos checavam.

A moça foi providencialmente solícita mais uma vez:

– Você vai perceber que nenhum frasco contém a mesma coisa.

Ou talvez nem tão providencialmente assim.

– É, percebi. Essa fumacinha aí dentro é a experiência?

­– É sim. Na prateleira tem uma etiqueta indicando a experiência que cada frasco contém. Você já sabe o que quer?

­– Ainda não. Vou só dar uma olhadinha, tá?

– Fique à vontade.

Demorou um minuto para perceber que não ficaria à vontade enquanto a moça estivesse ali, de mãos para trás, observando-a ler as etiquetas. Sentiu um ímpeto de sair e voltar quando tivesse a certeza do que precisava.

Um telefone tocou atrás da outra porta do recinto, e a moça finalmente a deixou. Ressentiu-se com o serviço oferecido pela funcionária: era de esperar-se que soubesse tratar melhor alguém tão inapto que precisava comprar experiências alheias para ver se funcionava melhor na vida.

Aproveitando sua liberdade temporária, aproximou-se mais das prateleiras. Em frente a um frasco no qual um vapor acinzentado espiralava, leu a seguinte informação:

Experiência 012659

X relata que ela e Y eram amigas até se interessarem por Z. Z escolheu Y. X tentou continuar amiga de ambos, mas percebeu que era doloroso demais. Motivo indicado por X para a venda desta experiência: “Quero mostrar os erros que cometi quando tentei preservar minha amizade com Y, mas que me levaram a perder Z.”

Entortou o nariz para esse recipiente. Era tão clichê. No entanto, intrigante observar de perto como o comércio de experiências funcionava. Quando descobriu o site da loja na internet, leu as informações constantes na página, mas nada comparava a ver as experiências condensadas e descritas em termos impessoais para preservar a privacidade dos seus fornecedores.

A loja comprava e revendia as experiências de vida de quem as desejava vender. Não foi informado no texto da homepage se os ditos fornecedores, as pessoas que haviam experienciado eventos em suas vidas que julgavam úteis para o aprendizado dos outros, perdiam ou não a memória daquilo que vivenciaram ao vendê-lo. Mas estava bem esclarecido que quem comprasse a experiência de um determinado fornecedor teria acesso às memórias dele, seus sentimentos, suas conclusões e observações acerca do que se passara. O grande lance era que o comprador adquiriria de uma só vez a sabedoria obtida por outro através de um longo processo de encontros e desencontros. Com esse conhecimento, era muito mais provável que o comprador não cometesse os mesmos erros que o fornecedor cometera caso a vida ironicamente lhe apresentasse uma situação semelhante. Era melhor do que receber conselhos, porque, ao experimentar algo de outrem, o comprador sentiria na pele tudo o que fora vivido. Era, portanto, didaticamente mais eficiente.

E, de qualquer forma, ninguém segue conselhos até levar uma bordoada na cabeça. 

(continua no próximo post)



Obs.: Esse texto foi escrito em julho de 2008 e foi postado aqui no início do blog. Há várias coisas de que não gosto nele, especialmente essa grande explicação do penúltimo parágrafo, mas, por preguiça ou apego, não consigo reescrevê-lo. Ao comentar esse fato com a Pessoa Inteligente, ela lançou o desafio de que eu escrevesse um novo texto em que eu revisitasse a loja de experiências. Pois bem. Então eis a primeira ida à loja (dividida em duas partes - a II está aqui) para dar o fio da meada caso consiga ir lá uma segunda vez.

Ah, e é claro que a protagonista sou eu, rs, desde a bolsa a tiracolo (companheira dos tempos em que eu não tinha carro) até os melindres com a vendedora. Vai perdoando aí, que eu estava iniciando minha mutação nesse tempo.

:o)

quarta-feira, 28 de dezembro de 2011

Desfragmentos


Um dia, descobriu que não gostava daquela imagem. Resolveu que ia desmontar o quebra-cabeças. Para celebrar a decisão, desafiaria seus limites por cada peça que descartasse. Pegou as chaves de casa, calçou os sapatos e saiu para o mundo com a gravura de quinhentos pedaços e um compromisso.

Então quinhentos atos de loucura preencheram seus dias. Girou o Sol em pés descalços. Uma peça a menos. À deriva, cantou estrelas num mar morno. Outra peça a menos. Brincou de fada na esquina de um sonho. Lá se foi outro pedaço do quebra-cabeças.

Enfim, restou apenas uma peça, guardada em sua mão. Hora de dizer adeus. Só precisava descobrir como.

Caminhou no pé ligeiro. Vida não espera. Apertou a peça contra a palma da mão e sentiu a resposta. Vai. Atravessou a rua. Subiu a calçada. Passou uma árvore e uma borboleta. Acompanhou o quarteirão. No fim, deu de cara com Ele. Ele, que a olhou nos olhos. Ele, que mostrou uma peça de quebra-cabeça (a última também!), jogou-a por cima do ombro, inclinou-se e beijou-a nos lábios.

Foi no tempo certo. Ele se afastou e esperou. Ela sorriu, rodando entre os dedos a sua peça e um pensamento. O olho brilhou quando entendeu. Deixou cair o último fragmento quando se aproximou dEle e apresentou o beijo que era seu.

Porque podia dizer não, dissera sim.

terça-feira, 29 de março de 2011

De quando tive vocação para ser emo

Encontrei dentro de um álbum de fotografias um fanzine que circulava na minha faculdade de Letras. Lembrava que havia escrito alguns textos para o Albatroz, mas este aqui tinha me escapado da memória e dos arquivos do computador. Foi um esquecimento tal que, folheando o zine, vi o título do texto e continuei passando as páginas, pensando que provavelmente eu guardara aquele exemplar porque havia algum bom conto de alguém conhecido. Somente quando cheguei na última folha foi que vi meu nome como colaboradora e descobri que Muralha era meu! Olha só:

Clique na imagem para poder ler.

(Risquei os emails dos colaboradores e editores.)

Perceberam toda a tentiva de rebuscamento, rs? Relendo-o, recordei que escrevi uma frase só para constar a palavras "perfilar". Agora percebo que não era à toa que um professor de redação me aconselhava a escrever de forma mais simples.

E ô coisa alegre, hein? Devia ser porque eu conciliava duas faculdades (quarenta créditos por semestre) e minha vida social era inexistente.

Ou porque tinha vocação para ser emo e nem sabia. ;o)

segunda-feira, 20 de setembro de 2010

Do fundo do baú

Esta é do fundo do baú. Redescobri uma pastinha no meu computador com textos que escrevi no colégio e na faculdade. Um dia desses, conversando com meu amigão Euclides, me surpreendi com o fato de que ele ainda se lembrava desta redação, escrita no terceiro ano do Ensino Médio. Acho que a redigi no período em que estudávamos para a segunda fase do vestibular, porque não me parece que tenha provindo de um tema proposto pela professora. Salvo engano, foi uma ideia que tive e que quis experimentar.

Amélia queria uma vida simples, longe da cidade, ao lado do homem humilde e trabalhador. Sonhava em acordar com o Sol, colher o dia sob os raios do astro e ir repousar com o marido depois da labuta honesta.

Era realista, porém, a Amélia. Sabia dos defeitos de seu companheiro da mesma forma como conhecia a si própria. Embora não se iludisse, entendesse que o casamento fora por conveniência, alimentava uma certa esperança de ser amada como achava de seu direito. Agarrava-se aos mimos que o homem lhe fazia e, nessas horas, permitia que a vil vaidade feminina a enganasse, fazendo-a crer no amor inexistente.

Um dia, flagrou o marido e a empregada enlaçados em êxtase. O homem não resistira ao corpo quente da mulata e rendera-se ao instinto que lhe fazia uma criatura como todas as outras. Amélia sentiu o ódio bombear a adrenalina nas suas veias. Ah, que ela matava aqueles dois!

Não os matou, porém. Quis foi sair correndo, trôpega, o busto arfante, as lágrimas como cristais lançados ao vento. Elevaria seus olhos ao firmamento, a alma soluçando despedaçada, e pediria forças para viver. Nunca estaria tão bela como naquele momento de súplica.

Amélia, entretanto, nem deu os três primeiros passos da tal corrida romântica. Aconteceu que, ao olhar para o céu, não viu a pedra e tropeçou. Tropeçou naquela mesma pedra encontrada pelo poeta no meio do caminho.


Nesse texto, resolvi abordar escolas literárias em cada parágrafo. No primeiro, exponho o ideal de vida simples e bucólica, próprio do Arcadismo. No segundo, entro no Realismo trazendo o tema do casamento por conveniência e tentando fazer uma abordagem mais "psicológica" da personagem. No terceiro, fiz presente um certo determinismo e fisiologismo característicos do Naturalismo. O quarto parágrafo é aquele sentimentalismo eloquente do Romantismo. Por fim, no último parágrafo, tentei ilustrar o Modernismo fazendo uma sátira do romantismo anterior.

Escrevendo este post, me dei conta de que não posso deixar de mencionar o blog da Silmara Franco, porque foi de lá que veio minha ideia de postar essa redação. A Silmara postou dois textos belíssimos escritos por ela ainda na adolescência. Recomendo muito a leitura de O fio da antiga meada e O fio da antiga meada - II. Está certo que não sou uma Silmara Franco, mas quis compartilhar com vocês essa Ana Raquel de onze anos atrás.

E agora vou embora que o trabalho me espera.

:o)

segunda-feira, 3 de maio de 2010

Minhas fanfics de Harry Potter

Fanart de Hito76

Percebi, um dia desses, que nunca falei das histórias de Harry Potter que escrevi. Trata-se, é claro, de fanfics, que a wikipedia define assim:
Fanfic é a abreviação do termo em inglês fan fiction, ou seja, "ficção criada por fãs". Trata-se de contos ou romances escritos por terceiros, não fazendo parte do enredo oficial do livro, filme ou história em quadrinhos a que faz referência.
Redigi cinco fanfics, que foram postadas no site Wizard Tales sob o pseudônimo Maria Taglioni. A primeira delas se chamava Anything-you-want-it-to-taste flavored lipstick. Surgiu da minha insatisfação com a J.K. Rowling (olha minha audácia!) quando ela introduziu o romance entre Harry e Ginny na saga. Na época, tinha ficado incomodada como, praticamente do nada, no intervalo entre o quinto e o sexto livros, Harry se descobria apaixonado pela Ginny. Daí resolvi correr atrás da minha catarse (essa é a beleza das fanfics) e escrevi esse conto, no qual Harry se dá conta, pela primeira vez, que Ginny já não é mais uma criança.

A segunda fanfic foi Break-ups. Com ela, tirei proveito da liberdade de expressão e criei um cenário alternativo para o começo da relação entre Harry e Ginny. A motivação para essa história foi apenas dar vazão ao meu romantismo, que teimo em não aceitar que existe e que beira o piegas.

A terceira história foi When two heartbeats match, outro resultado da minha birra com a J.K. Rowling. Com esse conto, quis preencher um vazio e explicar como é que a Ginny tomou coragem para sair correndo ao encontro do Harry e tascar aquele beijo do sexto livro.

Reborn foi a quarta fanfic e a única que não é sobre a relação de Harry e Ginny. Como errar é uma coisa muito doída para mim, pensei em quão difícil deveria ter sido para a pequena Ginny do segundo livro lidar com as consequências dos seus atos. Reborn é a minha ideia de como Ginny conseguiu se redimir perante si mesma.

Por fim, a última fanfic é By Making Things Right. Nela mostro que Ginny era importante para o Harry na medida em que contribuía para o bem-estar emocional dele. Como estar bem é o pressuposto para fazer qualquer coisa importante na vida, inclusive derrotar Lord Voldemort, Harry descobre que é melhor correr o risco de estar com a Ginny, porque, bem, ela é o interruptor do quarto escuro dele (olha o romantismo aí...).

p.s. pós-postagem: Tenho constatado problemas recorrentes com os links do Wizard Tales, então deixo aqui o HarryPotterFanfiction, site em que também postei as fanfics.

sábado, 11 de abril de 2009

Refletir - última parte

Todas as imagens utilizadas para ilustrar este conto são obras de Eric Zener. Descobri o artista no Mundo de K.


Apenas um pequeno detalhe atrapalhou seus planos: sua condição humana. Os pulmões avisaram-lhe que precisavam de oxigênio, e percebeu a tolice de suas intenções. Subir era necessário. Respirar era vital. Viver era inevitável. Começou a nadar de volta para a superfície. Bateu as pernas com mais força, impelida pela necessidade de ar e pelo instinto de sobrevivência. Viu a água se tornar menos turva e, para constatar que atingia a superfície, olhou para cima.



Quando emergiu, ainda mirava a mesma direção e, depois de piscar repetidamente, viu o céu pela primeira vez. Contemplou-o enquanto flutuava. Sentiu a sensação gratificante de ter vencido a si mesma. Experimentou a satisfação de saber o céu como ele era. Alcançou a plenitude de tê-lo consigo, agora refletido em seus olhos.


Sorriu.

sexta-feira, 10 de abril de 2009

Refletir - segunda parte

Todas as imagens utilizadas para ilustrar este conto são obras de Eric Zener. Descobri o artista no Mundo de K.


Em certa tarde límpida e indiferente, sentou-se à margem do lago em busca de uma resposta. Talvez a chave para saber como olhar para o firmamento seria entender por que não conseguia fazê-lo. Era tempo de voltar a tentar compreender. Era necessário retornar às primeiras indagações acerca de si. Era o momento de ver-se. Inclinou-se para a água tranquila do seu lago-espelho e, pela primeira vez, permitiu que sua própria imagem se refletisse no lago. Perante seus olhos, ali estava ela e o céu como pano de fundo.

Sem motivo explícito, estendeu a mão para tocar a superfície da água. O leve contato pertubou momentaneamente os contornos de seu reflexo, mas o céu permaneceu refletido azul e constante. Sentiu inveja da solidez que era o firmamento - nada afetava sua imagem porque estava presente em toda a superfície lacustre. E ela continuava sem poder testemunhar a grandeza do céu. Irritou-se com isso, e então surgiu um ímpeto de ver romper-se a placidez do lago. Assim atingiria o que do céu podia alcançar: seu reflexo somente.

Tirou os sapatos e entrou na água. Sentiu a lama nos pés até o momento em que foi preciso nadar para prosseguir em sua trajetória sem rumo. Tomou fôlego e mergulhou.


Apreciou a sensação da água no corpo, do atrito com a roupa. Imaginou que talvez fosse bom chegar ao fundo do lago e morar ali. Lá se esqueceria do céu. Decidiu que queria tocar o chão da lagoa e tomou essa direção.

quarta-feira, 8 de abril de 2009

Refletir - primeira parte

Todas as imagens utilizadas para ilustrar este conto são obras de Eric Zener. Descobri o artista no Mundo de K.



Se perguntassem, ela não saberia responder. Enxergar o céu em poças era-lhe rotina. Jamais erguer os olhos da linha do horizonte era-lhe natural. Ver o resto do mundo no chão era-lhe destino.

O que havia com ela que não a permitia olhar para cima, apenas para baixo? Sua face jamais se voltava ao côncavo azul. Seus olhos somente alcançavam do solo à imagem deles próprios em um espelho na parede. Ela não compreendia e deixou de tentar compreender.



Assim, habituou-se a ter a magnitude acima de si espelhada nos caminhos por onde andava. As chuvas de verão eram as preferidas, preenchendo depressões e sulcos da terra com água que refletia azul celeste e amarelo solar. À noite, abria a janela e espiava o negro apinhado de astros num espelhinho de maquiagem. O maior tesouro, no entanto, era o lago, porque equivalia a uma infinitude de poças ou de espelhos, mas ela não decidia se o lago era uma grande poça ou um grande espelho. Não importava, o que contava era o reflexo.

Um dia, porém, o reflexo se fez insuficiente. Ela queria ser como as outras pessoas, cujos olhos não se restringiam a captar imagens refletidas. Desejava ver o céu sem intermediários (as poças, o espelhinho, até mesmo o lago). Atormentava-a, no entanto, a aparente impossibilidade de vencer sua condição intrínseca. Como olhar para o céu?

sábado, 31 de janeiro de 2009

A loja de experiências

No ano passado, voltava de uma sessão de psicanálise quando pensei o quanto seria bom poder encapsular aquele estado de espírito em que me encontrava para poder usá-lo toda vez que a tristeza me envolvesse.

Imediatamente isso me pareceu a ideia que esperava ter para escrever um conto. Há anos não redigia (pelo menos em português) porque, quando conheci o Mestre Rodrigo Marques (sua poesia ainda terá um post aqui), coloquei-me no meu humilde lugar: melhor só ler o trabalho dos outros mesmo. Naquele tempo, não percebia que escrever pode ser um fim em si mesmo - escrever por escrever, inobstante juízos de valor.

Uma vez que minha analista me incentivava a escrever, decidi tentar.

O resultado ficou distante do conceito original. Permaneceu somente o ato de armazenar algo abstrato. Esse escrito tem um valor especial para mim porque significa uma tentativa de adotar uma nova postura diante da vida. Agora que tenho blog, posso compartilhá-lho:

A loja de experiências.

p.s. geral: O texto não foi escrito de acordo com a nova reforma ortográfica e deu preguiça de revisá-lo.

p.s. para Garota_D: Não consegui ver onde poderia fazer um corte no texto, então coloquei inteiro mesmo.