domingo, 5 de setembro de 2010

Sobre pais e filhos e a necessidade de permitir sofrimento


Quando estava ainda no segundo ano do Ensino Médio, recebi uma oferta de meia bolsa para cursar o pré-vestibular no Colégio Geo. Do fundo do meu coração, não queria ir. Durante toda a minha vida, havia estudado no Irmã Maria Montenegro. Meus amigos e professores estavam lá. Não me importava nem a suposta melhor qualidade de ensino do Geo; para mim, meu lugar era onde sempre estivera.

Mas a situação financeira do meu pai pedia que eu aceitasse a proposta. Na segunda-feira que iniciou o ano letivo de 1999, fui estudar no novo colégio. Fiquei no Geo.

Por apenas quatro dias.

Exatamente. Retornei para o Irmã Maria depois de apenas quatro dias. Minha mãe e minha tia, preocupadas com a tristeza em que eu me encontrava, resolveram interceder. Minha tia conversou com a diretora do Irmã Maria, que me conhecia desde criança, e que acabou por me conceder o mesmo desconto que o Geo ofecera.

Voltei na sexta para o Irmã Maria com um sentimento de fracasso. O pensamento que me vinha constantemente era o de que não fora capaz sequer de mudar de colégio. Era fato que havia ficado muito triste nos três primeiros dias na escola nova; no entanto, as coisas haviam começado a melhorar na quinta-feira, dia que ignorava ser o último por lá.

Recentemente me peguei pensando em como minha vida poderia ser diferente se tivesse permanecido no Geo. Talvez lá eu nunca fosse uma das melhores alunas da sala, e isso contribuiria para minar minha busca por essa perfeição ou esse pedestal que não existem. Talvez houvesse feito muitos outros amigos, e um deles tivesse sido meu primeiro namorado. Talvez viesse a acreditar mais em mim por ter vencido um desafio, e esse medo paralisante que sinto às vezes não fosse mais um problema. Tantas coisas poderiam ser diferentes.

O que quero mostrar com essa história?

Que deixar um filho sofrer pode ser a melhor coisa que um pai pode fazer por ele. Talvez isso pareça absurdo, sádico ou irresponsável, mas não o é. O preço de sempre proteger um filho das dificuldades da vida é torná-lo inapto para ela. Como venho descobrindo, invariavelmente quem paga esse preço é o filho.

A questão é que encaramos sofrimento como algo a ser evitado a todo custo, como se nada de bom pudesse nascer dele. Podemos afirmar isso de um sofrimento desnecessário, causado por apego, medo, masoquismo ou qualquer outra causa egoica. O mesmo raciocínio não pode ser aplicado ao sofrimento que é componente da condição humana. É impossível viver sem experimentar perdas, e, se elas existem, é porque ganhos também advirão delas. Nesse aspecto, sofrimento é pressuposto de crescimento.

Sobre isso, gostaria de compartilhar este trecho do livro Um novo mundo: o despertar de uma nova consciência, de Eckhart Tolle:
Se você tem filhos pequenos, ofereça-lhes toda a ajuda, orientação e proteção que estiver ao seu alcance. Contudo, mais importante ainda é: dê-lhes espaço - espaço para que possam existir. Você os trouxe ao mundo, mas eles não são "seus". A crença "Eu sei o que é melhor para você" pode ser adequada quando as crianças são muito pequenas; porém, à medida que elas crescem, essa idéia vai deixando de ser verdadeira. Quanto mais expectativas você tiver em relação ao rumo que a vida delas deve tomar, mais estará sendo guiado pela sua mente em vez de estar presente para elas. No fim das contas, seus filhos cometerão erros e sentirão algum tipo de sofrimento, assim como acontece com todos os seres humanos. Na realidade, talvez eles estejam equivocados apenas do seu ponto de vista. O que você considera um erro pode ser exatamente aquilo que seus filhos precisam fazer ou sentir. Proporcione o máximo de ajuda e orientação, porém entenda que às vezes você terá que permitir que eles falhem, sobretudo quando estiverem se tornando adultos. Pode ser que às vezes você também tenha que deixá-los sofrer. A dor pode surgir na vida deles de repente ou como uma conseqüência dos seus próprios erros. (p. 92)
Hoje, revi Pequena Miss Sunshine com uma amiga. Há uma cena em que o irmão de Olive (a garotinha) implora para a mãe impedi-la de subir ao palco. Diz que as pessoas vão rir de Olive e que a mãe tem obrigação de protegê-la. A mãe, mesmo apreensiva, escolhe deixar Olive decidir. Para o irmão diz, "Eu sei que quer protegê-la, mas temos de deixar Olive ser Olive". Para a filha, esclarece que, se quiser desistir, não há problema, pois todos já estão orgulhosos dela. Olive decide ir. E então começa o trecho mais engraçado do filme.

Que tenhamos a coragem dessa mãe. Sei que não é fácil. Aliás, dado que não sou mãe, é mais apropriado dizer que nem sei quão difícil deve ser. Mas trata-se de um aprendizado por que pais e filhos devem passar.

À minha tia, que sei que visita o Reflexos de vez em quando, digo que não a culpo. Sei que agiu por amor e com a melhor das intenções. Beijo, tia.

6 comentários:

Marcelo Fogão (Headfire) disse...

Você nem imagina o quanto eu sinto e percebo a maioria dos mesmos sentimentos que você sente...esse último post, deu pra perceber muito bem isso. Ao menos, você tem várias pessoas que lhe apoiam...mesmo torcendo o nariz às vezes, mas lhe apoiam, e mesmo assim, você venceu na vida...e eu, só tenho uma pessoa que me apoia nessas horas, mesmo ainda não tendo vencido na vida...o restante do mundo só me escurraça. Lembre-se que existem muitas pessoas que sentem e passam pelo mesmo que você, que não está sozinha nesse mundo...Talvez naquelas horas mais difíceis, sejam as melhores pessoas para nos ouvir e nos darem um colo para chorarmos e descansarmos.

Beijos e abraços do seu primo.:D

Luciana disse...

Ana, realmente, acho que esse é um dos maiores desafios aos pais. Sei que terei muita dificuldade com isso. Se até Lilica é meio super-protegida, rsrs...

Acho que só podemos pedir a Deus para nos ajudar a proteger sem sufocar, ajudar sem incapacitar... Quem disse que ser pai e mãe era fácil?? ;-)

Anônimo disse...

Posso fazer a pergunta que ninguém faz?

E onde estava você do alto dos seus 15/16 anos que não disse: mãe, vou ficar no Geo. Tia, vou experimentar mais um pouco, se não gostar volto pro colégio anterior.

Nessa idade há uma força assustadora dentro da gente, de romper laços, de desbravar o desconhecido... mas permanecer dentro da redoma é mais cômodo e estupidamente mais seguro, confesso, também já fiz isso.

Somos responsáveis também pelo que não fazemos, mesmo aos 15/16 anos de idade. O não-fazer também é um movimento, também é uma escolha, também resulta em responsabilidades.

Onde estava a sua força? O seu ímpeto? A sua vontade de conhecer o desconhecido, a sua ânsia de encontrar o que lhe fugia dos olhos no tal colégio acostumado às suas quietudes e à sua imagem de bela aluna exemplar?

Já naquela época nós éramos responsáveis por nossas escolhas, só que ninguém nos dizia isso. Achávamos como de vez em quando ainda costumamos achar que tudo que aconteceu foi uma "decisão do pai" ou "proteção da mãe".

Na verdade foi uma decisão sua, é sempre uma decisão nossa, ainda que por omissão, medo, vergonha ou silêncio camuflado de tristeza que dizia aos quatros cantos da casa: "Alguém, por favor, me devolve pro meu colégio anterior onde eu tenho amigos e sou admirada por quem não sou (ou pelo menos por quem eu não queria ser: só aquilo que os outros queriam que eu fosse), mas eu estou tão acostumada que prefiro assim a ter que enfrentar o desconhecido".

O que a mãe e a tia fizeram foi apenas operacionalizar um desejo seu que se expressava nos quatro dias de tristeza nos cantos da casa. Foi super-proteção? Foi.

Mas foi também para atender a um pedido silencioso seu recheado de tristeza? Foi.

Então, noves fora, deu empate. A sua alma pedia aquela super-proteção que veio como uma mão para a luva. A alma da Olive pedia o risco, pedia a exposição, pedia a coragem de enfrentar o ridículo (veja que no filme ela por um segundo titubeia ao apoio da mãe, como quase desistindo).

Então, volta ao começo da história: aconteceu o que você escolheu, o que você queria que acontecesse (pelo menos a partir desse relato).

Olha só, a gente sempre costuma idealizar o que não aconteceu. Não é à toa que o "se" é a palavra mais perigosa da língua portuguesa.

:-)

Bom te ler,

V.

Raquel disse...

Touché, V., rs.

Tão grande era o meu medo de sair da redoma, que não vislumbrava alternativa alguma para aquilo: se diziam que deveria voltar para o Irmã Maria, então voltaria.

Engraçado, seu comentário me mostrou um padrão de vitimização presente já naquela época. Padrão que talvez tenha se manifestado quando escolhi minha história para ilustrar esse post. Na realidade, quando comecei a escrever a postagem, ia falar das dificuldades de uma colega de trabalho com o filho adolescente e como ela, mesmo reclamando que tem medo de ele não crescer na vida, continua a tratá-lo como criança, lembrando-o de estudar, pagando uma mesada considerável, etc. Mas não me pareceu correto estar falando de terceiros, e lembrei-me desse meu episódio, e contei-o como se tivesse uma faca fincada no coração, rs. Ó drama!

Muito grata pelo toque de despertar.

:o)

Euclides Vega disse...

Tive algumas das considerações do colega anterior, tive outras sobre o "se".....
Quer dizer que te perdemos por quatro dias (eu realmente tinha esquecido disso.)
Ana, viver são escolhas, e são poucas aquelas que não podemos voltar atrás. Se não podemos revivenciar tudo (claro que não podes voltar ao terceiro ano...)os efeitos dependem de nós. Não há certezas sobre o que teria passado no Geo, como de forma alguma aquele ano teria definido quem você é. Isso quem define é você, hoje, independente dos seus pais, amigos, animais de estimação, crenças, roupas que veste, sapatos que usa. Se concordamos que sempre é tempo de aprender, sempre é tempo de viver, então sempre é tempo de fazermos de nós outra pessoa, a pessoa que queremos ser.

(mas eu teria ficado triste se tivesses saído do colégio)

mariana disse...

raquel, querida,
hoje li seu blog quase todo, numa onda de sede enorme pelos seus escritos como eu sentia na segunda série.

acho que você poderia ter ido estudar até na alemanha. essa sua delicadeza, sua perseverança e o lado bom do seu perfeccionismo, que sempre ficou muito claro desde criança, não mudariam nunquinha. acho que aceitar quem a gente é faz parte disso. sempre me culpei muito por se desorganizada em vários aspectos: com coisas, pessoas, contatos, compromissos, amigos. hoje vejo que parte da minha luta para minimizar isso adianta. outra parte jamais adiantará.

ainda bem que somos assim. como seria triste se as escolhas, as terapias (tb faço análise), os amigos, as culpas nos transformassem em outras pessoas distintas do que nascemos pra ser. ou do que pensávamos que éramos.

um beijo enorme. quando você escreve, parece que eu estou vendo você.