sábado, 9 de outubro de 2010

Não entendo

De volta ao mundo virtual. Alguns eventos andaram modificando minha rotina nesses dias, e fiquei colecionando ideias que queria transformar em posts até poder sentar na minha cadeira com a tranquilidade de que preciso para escrever.

Dos vários temas que circulam pela minha cabeça, hoje escolho falar da minha prima Isabele. Na quarta-feira passada, lembrei que foi graças à Isabele que ouvi falar da Madona pela primeira vez. Eu era criança ainda, e brincava com ela no seu quarto enquanto ouvíamos uma música. Aí meu pai apareceu na porta, encostou-se com os braços cruzados sobre o peito e censurou:

"Como é que se gosta de Madona?"

Não sei bem o que a Isabele respondeu, mas acho que defendeu seu gosto musical e a artista. Aliás, acho que a primeira vez que ouvi alguém falar em inglês foi com a Isabele. E o primeiro e único coração que vi desenhado em uma estante, representando a paixonite por algum colega de escola, foi também com a Isabele.

Lembrei de tudo isso enquanto estava sentada no velório da Isabele, na AABB de Itapipoca. Infelizmente minha prima faleceu aos 33 anos de idade, deixando dois filhos, marido, pais, irmãos, tios e primos sem entender muito bem.

Aliás, devo dizer que eu não entendo muito bem. Não é que não compreenda a morte. Não entendo muito bem é como é que se convive com uma ausência, no nível mais físico que isso pode significar. Sabe aquele verso da música do Chico Buarque que diz "A saudade é arrumar o quarto do filho que já morreu"? É dessa ausência que falo, dessa ausência que transparece nas coisas do dia-a-dia que ficaram para trás, parecendo sem utilidade.

Não entendo muito bem o que é que o marido da Isabele vai fazer quando abrir um armário cheio de roupas que ela não vai mais vestir. Não entendo muito bem como é que seus filhos vão lidar com o lado vazio na cama de casal quando eles tiverem medo de dormir sós e forem para o quarto dos pais. Não entendo muito bem como é que meus tios vão comemorar aniversários ou natais com apenas três dos quatro filhos que tiveram.

Essa ausência sempre me assusta quando penso na morte. É a medida da perda sentida no mundo cotidiano, é um vazio que preenche um espaço, que chama a atenção para aquilo que não ocupa mais. Desconfio que nem crença espiritual alivia essa dor... somente o tempo deve servir como algum remédio, depois de o tempo passar bem muito.

E fico por aqui porque, já que não entendo, não sei como terminar este post.

3 comentários:

Lígia Guedes; disse...

Raquel,
Morrermos a cada dia fisicamente e nem percebemos.
A vida, verdadeira, é eterna e só tomamos posse de sua compreensão com a morte física.
Nada alivia a saudade de quem fica mas lembro que você, pessoa tão sensível sabe melhor que ninguém que tudo caminha para a perfeição, 'não cai uma folha sem que seja do conhecimento D´Ele'.
Recordar os belos momentos, as vivências, isto é vida e você o faz muito bem.

Rafael Montenegro Assunção disse...

Tekinha adorei o post, quem dera eu tivesse alguma recordação da minha infância com ela. Fiquei bastante triste no velório pq me sentia incapaz de me lembrar de algum fato da minha vida que tenha passado junto dela, mas me lembro vagamente de quando pequeno ter entrado no quarto dela e ter alguma coisa da Madona.

Puxa, acho que essa rejeição do nosso Pai pela Madona eu lembro :)

bj!

Luciana disse...

Acho que ninguém consegue imaginar como conviver com essa ausência, mesmo aqueles que já estão passando por isso... É um dia após o outro, vai-se vivendo... Que pena pela sua prima, muito nova. :-/