
Até que o Dinho já havia me explicado uma vez. Entendi, mas não soube enxergar a real importância. Nesses últimos dias, acho que comecei a compreender melhor.
Falo da dimensão psicológica que compõe a prática esportiva. Por engano, reduzi esporte a treino e força física. Não me passava pela cabeça incluir a cabeça do atleta nessa equação. Para mim, a dificuldade e as provações se encontravam somente no nível físico.
A ficha começou a cair quando os treinos do Dinho para o Piocerá (dizem ser o maior rally do Nordeste) aumentaram em dificuldade. Vi-o chegar de um treino que durou nove horas e meia. Nove horas e meia sobre uma bicicleta, percorrendo trechos de areia e subidas sob o Sol fortíssimo da nossa terrinha.
Já pensaram na agonia (desculpem o cearês) que deve ser pedalar horas e horas debaixo de Sol quente seguindo trilhas desafiadoras? Quantas vezes não devem surgir pela mente do ciclista pensamentos tais como "não vou conseguir"? Quantas vezes esses pensamentos não podem convencer o esportista a desistir antes da hora?
Duvidam que pensamentos possam fazer isso? Para ilustrar o poder que damos a eles, sigo na direção contrária e conto das pulseirinhas Power Balance. Meu mundo caiu quando li esta postagem no Repare o Tempo. Embora não a tivesse experimentado, vi o Dinho quase virar homem elástico quando testou uma. Soube que era a febre dos triatletas. E depois lá veio o fabricante do produto dizer que aquilo era balela. Então, todas as manifestações de maior flexibilidade e equilíbrio provinham somente da crença dos usuários da Power Balance. Os atletas pensavam que podiam; logo, conseguiam.
Refletindo sobre isso, confesso que, de certa forma, esse aspecto positivo da mente me deixou meio confusa hoje, rs. É que, segundo o que aprendo em trabalhos como Renascimento e Kyol Che, a mente é uma coisa sem futuro que nos rouba de nossa verdadeira essência. É sempre egoica. Dentro dessa perspectiva, como conciliar essa concepção com o efeito placebo que a mente produziu no caso das pulserinhas?
Acolhendo a possibilidade de que posso ter entendido errado tudo o que me ensinaram, mesmo assim matutei, matutei e matutei. Cheguei à conclusão de que nada é melhor do que a coisa como ela realmente é. Tudo aquilo que é baseado em algo falso não se sustenta quando a inverdade é exposta. Por exemplo, será que agora os usuários da Power Balance conseguirão as mesmas proezas de outrora? Hoje, pedi a pulserinha do estagiário emprestada, ensaiei um retiré e não obtive resultado diferente do normal. Será que se houvesse tentado antes de ler o post, eu não teria ficado facilmente horas e horas em um pé só? Provavelmente sim. Isso não seria bom? Não, porque não é a verdade. No momento em que perdesse a fé naquilo, não funcionaria mais. No final das contas, crenças são precárias e pensamentos são instáveis. Quando nos identificamos com eles, somos tão precários e instáveis quanto.
Fechando o círculo e voltando para a dimensão psicológica dos atletas, será que alguém os lembra de estar sempre um passo à frente de suas mentes? Vencer os pensamentos durante uma prova desgastante deve ser tão difícil quanto enfrentar vento, areia e subida. Mas eles conseguem e nos deixam a lição de fazer o mesmo.
p.s.: Dinho estava programando atualizar o Ciclismo, Música & Other Stuff com posts sobre as provas do Piocerá e os lugares que estão percorrendo. Tomara que ela tenha condições de fazer isso. Quem quiser acompanhar, é só seguir o link.
p.p.s.: Este post acabou resumindo-se ao ciclismo porque é a realidade com que tenho contato através do Dinho. Na verdade, tiro o chapéu para todos aqueles que são atletas.