domingo, 3 de maio de 2009

Descompasso

Depois de ver o vídeo da Susan Boyle, Britain's Got Talent virou minha nova mania. No YouTube, vi todos os episódios deste ano e os mais marcantes de 2007 e 2008. É engraçado perceber que, até em um show de calouros, há o que se aprender e pensar.

Neste post, quero abordar um tema que me intriga. Ilustro primeiro com esse vídeo do trio adolescente Singing Souls, que se julga melhor que as Pussycat Dolls e Sugababes.

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Meu segundo exemplo é Kay, dono de uma performance que alega ser única, pois é capaz de imitar um saxofone apenas com sua voz.

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Okay. Dá para adivinhar o que me intriga?

Desde que comecei a ver esse programa, fiquei impressionada com a imagem que certas pessoas têm de si e o descompasso desse autoconceito com a realidade. Não existe aqui nem espaço para dizer que é uma questão de gosto ou opinião. É fato que as três adolescentes não são cantoras melhores que as Pussycat Dolls e que Kay está longe de imitar um saxofone.

Como não sou psicóloga, não disponho de conhecimento especializado para entender isso, então só me resta especular. Que mecanismo é esse que existe dentro de nós que nos impede de nos vermos verdadeiramente?

Essa pergunta ganhou peso maior quando vi este último vídeo, extraído do programa de 2 de maio. Coloco-o na íntegra porque merece ser visto. Jamie Pugh é um trabalhador cujo sonho é cantar no Royal Variety Performance. Seu grande obstáculo é o medo do palco, que diz ser paralisante. Porém, decidido a vencer essa limitação, ele se inscreveu no programa. O resultado foi o seguinte:

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Talvez o medo do palco não seja o maior desafio de Jamie. Quando se emocionou ao ouvir de Simon que é hora de acreditar em si, a reação de Jamie me fez pensar que ele também tem uma imagem errada de si mesmo, desta vez não condizente com a realidade porque inferior ao que Jamie é de verdade.

Depois desse vídeo, vi que a questão é uma via de mão dupla: podemos nos achar melhores do que realmente somos, mas também podemos ser incapazes de perceber o quão bom somos. Aproveitando a metáfora que subjaz ao nome deste blog, nos dois casos o reflexo não condiz com o objeto refletido, com a realidade. Ora a imagem é maior do que deve ser, ora é menor.

Que espelhos são esses que usamos? Por que foram forjados?

Como nos livramos deles?

Ao vencer o seu medo, ao ter seu valor afirmado e restituído, Jamie se disse completo. Nem maior, nem menor. Na medida certa.

Sem descompasso.

2 comentários:

Anônimo disse...

O vencedor do BBB9, Max, tem duas tatuagens q dizem: 'MAXIMEZE-SE' (num antebraço) e 'MINIMEZE-SE' (no outro).
Achei bacana demais essa filosofia dele (se é q é dele mesmo!).
Quem diria: BigBrother, assim como show de calouros, tbm pode acrescentar coisa boa!
Beijo.
ICL

Garota D disse...

Super importante sua colocação, Raquel. O descompasso faz parte da realidade de muito e eu me incluo nesse número, tanto quando tenho crises de grandeza megalomaníaca, quando me sinto pequena e dá aquela insegurança de que não vou conseguir fazer determinada coisa. Sabe aquela história de quem está de fora vê melhor? Pois é, nós estamos tão perto de nós mesmos que às vezes (muitas vezes) perdemos o foco e nos vemos distorcidos... O que eu acho pior é quando ajudamos essa ilusão a se concretizar ao verbalizar: eu não consigo, eu sou melhor do que ela, etc. Lembra a primeira vez que a gente ouve a nossa voz gravada? Poxa, a nossa voz que nos acompanha a vida inteira e quando ouvimos, perguntamos: minha voz é assim? Da mesma forma quando uma pessoa nos descreve diferente do que imaginamos ser, nos perguntamos: eu sou assim? Precisamos encontrar um espelho mais nítido, não podemos ter medo de encarar nosso real reflexo e se não gostarmos do resultado, é hora de lutar para melhorar.