
Ah, sim... finalmente me mudei.
O que não quer dizer que a mudança mais longa da história terminou. Pensando bem, ela também é a mudança mais mal planejada de que tenho conhecimento. Meu modus operandis é andar com uma caixa dentro do carro. Toda vez que passo na casa dos meus pais, trago alguma coisa pra cá. Assim, divido o todo em partes, e não parece mais tão desanimador mover tudo de um lugar para outro sozinha.
E o que dizer de morar só?
Bem, até agora está sendo uma mistura de sentimentos. Na primeira noite em que dormi no apartamento, até que me senti contente. Era um passo que adiava desnecessariamente, e vencer a resistência que ainda existia tinha ares de uma vitória. Comemorei fazendo uma meditação Kundalini no meio da minha sala, coisa que, se você seguir o link, entenderá que era impossível fazer na casa dos meus pais sem ser chamada de doida.
Mas, quando acordei no dia seguinte, bateu uma tristezazinha. Ela ainda me visita de vez em quando. Não sei bem dizer por que vem, mas aparenta ser referente a um sentimento de solidão. Isso chega até a ser engraçado. Analisando minha rotina com relação aos meus pais e ao meu irmão, nada mudou significativamente. Não éramos uma família que sentava à mesa unida, porque cada um tem seus horários. Não víamos TV juntos porque cada um tem seu gosto e seu aparelho no quarto. De certa forma, éramos sozinhos em grupo. No fim das contas, o que fiz foi apenas mudar de local. Conversar com eles só requer uma ligação ou descer a Carlos Vasconcelos ou a Barão de Studart em direção à praia. Mas, mesmo assim, às vezes olho os cômodos e algo parece faltar. Acho que é porque já moramos aqui juntos.
E aí a mistura continua, e digo que morar só também é muito bom. É um prazer inédito na minha vida encontrar as coisas no exato lugar em que as deixei, por mais (in)apropriado que seja o local. Adoro fazer as minhas compras de casa, inobstante o tamanho da fila no Carrefour. É libertador poder ouvir a música que quero sem ser questionada, cantar e desafinar sem ser criticada, meditar sem ser interrompida. Sem falar que poderei receber meus amigos para papear, assistir a filmes ou tomar banho de piscina. E, paradoxalmente, a mesma solidão que me entristece me agrada às vezes. Ah, já falei do prazer inédito de encontrar as coisas no exato lugar em que as deixei? Não tem preço.
Por fim, explico o título. Quando pensava em me mudar, uma pergunta que vinha constantemente à minha mente era: como é que vou saber escolher as laranjas? É que nunca havia comprado as laranjas do meu suco no café da manhã. Meu pai sempre fazia a feira e eu nunca prestava atenção quando ele as comprava. Então essa indagação resumia todo o meu medo e insegurança de caminhar com as próprias pernas. Aliás, era mesmo uma metáfora para esse processo.
Devo dizer que agora estou escolhendo essas laranjas metafóricas.
Só falta fazer isso com as de verdade. ;o)