segunda-feira, 25 de janeiro de 2010

Sherlock Holmes

Este post contém um leve spoiler.


Devo confessar. Quando vi o trailer de Sherlock Holmes no Galera_D, pensei logo "Esse não é o Sherlock Holmes de que me lembro" e fiquei meio desconfiada desse filme. Em regra, não tenho problema com adaptações de livros para o cinema porque nunca guardo a expectativa de que o filme seja "fiel" ao livro, mas, no caso de Sherlock Holmes, tudo parecia infiel demais: explosões, brigas e um detetive mulherengo.

No final das contas, minha desconfiança era prematura, desnecessária e até arrogante. Em primeiro lugar, não havia lido histórias suficientes de Conan Doyle para saber quem era Sherlock Holmes de fato. Aliás, nem a memória me ajudava nesse aspecto, porque foi durante o início da adolescência que li um livro de contos protagonizado pelo detetive. Em segundo lugar, trailers são elaborados para atrair público (com exceção de Eragon, alguém já viu filme parecer ruim em trailer?). Sendo assim, é claro que haveria explosões e mulheres, mas isso não significa, obviamente, que o longa se resume a isso. Em terceiro lugar, ainda presumi errado que havia mulheres na vida de Holmes; há apenas Irene Adler.

Graças à resenha de Isabela Boscov na Veja, entendi como deveria assistir a esse filme. A crítica de cinema explica que o consta lá é uma desconstrução da personagem de Sherlock Holmes. Por mais que não saiba o que isso verdadeiramente implica (quando desconstruo uma personagem, com que finalidade o faço? O que retenho dela para identificá-la como tal?), isso me deu a liberdade de ir ao cinema sem esperar ver o Sherlock Holmes dos livros.

Foi bem mais divertido assim. Posso dizer que é um filme de ação que realmente possui enredo. Quando lia romances policiais (Agatha Christie, na grande maioria), ficava ligeiramente frustrada depois que o detetive desvendava e explicava o mistério. Pensava algo como "Com que diabos eu ia adivinhar que aquilo era uma pista?" No longa, fiquei feliz quando Holmes desvelou tudo e tirou o matiz paranormal do mistério. Essa era a única coisa que me importunava: a possibilidade de que o vilão de fato lidasse com forças paranormais.

Posso igualmente afirmar que é um filme de ação verdadeiramente engraçado, e o humor funciona por ser inteligente e irônico. E quem diria? Adorei ver as cenas de luta, principalmente assistir aos golpes analiticamente calculados de Holmes.

Por fim, gostei da dinâmica entre Holmes e Watson. Lembro que as histórias de Conan Doyle me davam a impressão de que Holmes era um tanto condescendente (ou simplesmente chato) com Watson. No longa, vi o apreço que tinham um pelo outro e o prazer que sentiam em trabalhar juntos, como um time. Se isso é fruto da tal desconstrução da personagem, que continuem desconstruindo.

terça-feira, 19 de janeiro de 2010

A importância de ressignificar


Anos atrás, o colega R. M. me falava de Kant dentro da salinha de um projeto de extensão de que fazíamos parte na faculdade.

"Aí, pra Kant, é como se víssemos o mundo através de uma lente. Tudo depende da lente com a qual vemos o mundo. Já pensou? Se uso uma lente cor-de-rosa, vejo o mundo assim, cor-de-rosa. Troco por uma lente azul, e vejo o mundo diferente."

De que cor serão as minhas lentes?

Mais importante, quando vou trocá-las?

E essa pergunta surge, porque, faz um tempinho, queria escrever sobre a importância de ressignificar nossas crenças e os acontecimentos de nossas vidas.

Começo com os meus fracassos.

Demorou um ano e várias sessões de análise, mas um dia finalmente entendi que, porque uma experiência não terminou com o êxito que almejava, ela não deve ser descartada. A razão para tanto é bem simples: sou o que sou neste momento graças àquela experiência. Aquele evento faz parte de mim, e o futuro à minha frente ganha algumas possibilidades mais em virtude do que conheci com aquela experiência.

O grande problema é o fardo que o insucesso adiciona a essa experiência, peso que não deveria existir. Há uma crença fortíssima em nossa sociedade que vincula felicidade a obter o que se quer ou a acertar - sim, porque cometer erros é um suplício para mim e acredito que para a maioria também. Particularmente, com isso perco a perspectiva das coisas, perco a noção do que realmente importa, esqueço que é sempre melhor buscar se enriquecer com o que acontece, esqueço que é mais salutar ser grata pelo que vivi.

É nesse sentido que importa ressignificar. Há tantos, tantos padrões e formas pré-concebidas de encarar situações que causam sofrimento desnecessário. Permeiam nossa educação familiar e escolar, nossos ambientes de lazer e de trabalho, nossas leituras e passatempos multimidiáticos. Imprimem em nossas mentes a necessidade do sucesso, propagam a meta de se conseguir tudo de primeira, disseminam o dever de ser o melhor de todos. E engolimos tudo isso. É impressionante como não sabemos lidar com frustrações, mas, ao mesmo tempo, continuamos criando e perpetuando interpretações e modos de ver as coisas que só ensejam exatamente isso: frustração. De certa forma, que seres masoquistas nós somos!

Falta-nos olhar os acontecimentos de nossas vidas com outras lentes, desta vez lentes que não foram coloridas por esses padrões e formas pré-concebidas. Ouvi em algum lugar, acho que em um DVD do Eckhart Toller, que não existem erros, mas experiências. Isso é ressignificar. É colocar entre aspas o "fracassos" que escrevi ali em cima. A vida fica tão mais simples assim.

Para mim, o desafio maior é ser uma pessoa que ressignifica. Digo isso porque é comum me sentir chateada quando as coisas não dão certo. Aí tento dar o passo seguinte e entender que essa chateação só tem lugar em um contexto antigo, quando ainda interpretava fracassos como fracassos sem aspas. Se dissesse que consigo melhorar só com isso, estaria mentindo. Mas quero acreditar que, um dia, não precisarei seguir passos: estarei tão centrada, tão certa do que a vida é, que naturalmente aceitarei os "fracassos" como parte dela. Sem sofrimento. Com gratidão.

Porque aí já terei ressignificado de verdade.

Já estarei usando minhas novas lentes multicoloridas. :o)

terça-feira, 12 de janeiro de 2010

Chegou a hora de apagar a velinha...

Um ano de Reflexos!!

Obrigada aos amigos que sempre dão uma passadinha por aqui. Beijo e abraço para todos vocês.


p.s.
Soube, pelo comentário no post anterior, que hoje também é aniversário do graaaaaande O Cara da Locadora. Parabéns, Nespoli e Miojo!

segunda-feira, 11 de janeiro de 2010

inominado

Amanhã o Reflexos completa um aninho! Para comemorar, tinha imaginado redigir um megametapost fazendo referências a tudo o que foi escrito aqui, identificar e rir das palavras e expressões que acabo usando demais (e.g. "vale a pena"), citar os comentários mais divertidos ou inteligentes que recebi... Seria também uma forma de refletir sobre o ano que passou e contar coisas que não compartilhei.

Mas eis que uma virose chata me pegou, e não tenho disposição para ficar em frente do computador por muito tempo.

Vai ver que isso foi bom. Talvez estivesse prestes a cometer um ato inconsciente de narcisismo. Afinal, quem fica lendo e relendo as coisas que escreve (a não ser que seja para revisar e editar)?

Então me restou olhar os marcadores aí do lado e constatar resignadamente que li poucos livros em 2008. O marcador para esse assunto tem quatro míseros posts. Está certo que não "resenhei" os quatro da saga Crepúsculo, mas é incrível como não se tem muito para falar acerca deles. Para não esnobar agora uma série que me empolgou no passado, digo que devorei os quatro livros um atrás do outro, intrigada com o que poderia ser o desfecho do "drama". No fim, só pensei "Valha, que mulher (Stephenie Meyer, a autora) pra inventar coisa."

Por outro lado, o marcador filmes está em segundo lugar no número de postagens. Falta admitir que assisti a muitos outros que não comentei aqui. Aliás, aqui vai um agradecimento (em vão, já que ele não vai ler) ao Pablo Villaça do Cinema em Cena. Até descobrir as resenhas dele, suava para falar de um "filme" porque o único sinônimo de que me lembrava para essa palavra era "película", que, convenhamos, soa pedante num blog como este aqui. Aí vem o Pablo com o simples "longa", que introduzi no meu vocabulário ativo de novo. E ainda soa descolado ;o).

O marcador campeão é o me, myself and I. Nele registrei todas as reflexões, reminiscências, desabafos e tudo o que só tinha a ver comigo. Como são muitas postagens, resolvi reler somente meu primeiro post neste blog e vi como tudo que disse ali continua verdade. Depende de mim crescer, ter outro ano novo, viver. Acrescento a isso a descoberta do valor que a palavra escolha tem. No meu contexto de vida, a distância entre permanecer inerte e agir está em uma escolha minha. Para sair da esfera em que sou espectadora para aquela em que sou sujeito da minha própria vida é necessário somente um passo. Basta que eu escolha dá-lo. Tudo é uma escolha minha.

Bom, tudo exceto a virose. :o)

Até amanhã.

quarta-feira, 30 de dezembro de 2009

Avatar


Enquanto estudava História no colégio, vez e outra me pegava pensando nos meros mortais que testemunharam aqueles eventos. Perguntava se eles haviam percebido que presenciavam algo que seria recontado por anos. Será que quem parou para ver Maria Antonieta ser decapitada se deu conta de que aquele fato entraria para a História?

Foi daí que veio uma sensação de incredulidade quando assisti ao incidente do World Trade Center em 11 de setembro de 2001. Além do choque natural de ver uma tragédia daquela proporção, naquele momento eu era um dos meros mortais que testemunhava um acontecimento histórico. A propósito, agora me lembro da queda do muro de Berlim e de meu pai falando "É bom guardar essa data. Isso aí vai entrar pros livros de História."

No dia 19 deste mês, presenciei outro fato histórico, mas esse não vai constar nos livros didáticos comuns. E ainda bem que há espaço em nossos registros para coisas outras que não decapitações e desmoronamentos de torres e muros. Ainda bem que somos igualmente capazes de construir. Ainda bem que o poder de criação pode se perpetuar de várias formas, inclusive em um filme.

Avatar é um marco. Basta ler qualquer matéria sobre a nova obra de James Cameron para perceber isso. Aliás, simplesmente assistir ao longa é suficiente para se compreender a inovação que o filme representa.

Cameron criou um mundo novo, e esse realmente é admirável. A invenção de uma nova fauna e flora (que é algo realmente nunca visto), ou a constituição meticulosa do planeta Pandora, onde vivem os Na'vi, é um feito memorável. São paisagens e imagens belíssimas, que impressionam mais ainda por serem geradas por computador. É por isso que falo em poder de criação. É prova do potencial que temos para fazer o bem quando constatamos a capacidade do homem em criar coisas tão belas.

Outro mérito do filme é a perfeita integração entre o virtual e o real. O mundo novo de Cameron se expande para além de Pandora e engloba um mundo fílmico em que a computação gráfica não destoa mais da realidade, e tudo é um todo sem cortes ou costuras.

Efeitos especiais à parte, Avatar mostra conteúdo. Há mensagens políticas, mas são secundárias para mim, que sou reconhecidamente apolítica. Em vez de paralelos com o imperialismo americano, foi mais marcante ver como os Na'vi compreendem que todos provêm de uma Unidade, e como tal consciência se revela no respeito que demonstram a todas as criaturas, a eles próprios e ao mundo em que habitam. Não são melhores ou piores do que animais e plantas; são iguais, e, conforme Neytiri explica, enquanto vivem no mundo físico, apenas tomam emprestada a energia que nutre o Todo, depois devolvendo-a ao morrer. A conexão dos Na'vi com os animais permite-lhes que os bichos sejam extensão de seu corpo, atendendo à sua vontade através de palavras ditas ou pensadas. Nesse ponto, os humanos do filme tornam-se uma pálida paródia dos nativos de Pandora, porque sua conexão somente se dá com máquinas gigantescas, acionadas pelos movimentos de seus usuários.

A própria concepção dos avatares levanta a questão de como somos mais do que o corpo físico. Simplificadamente, isso se reflete na ideia de transportar mente, crenças e sentimentos de um corpo humano para outro produzido em laboratório. Há um quê em nós maior do que a soma de sinapses e reações químicas. Estamos lá. Somos esse quê.

Pela data deste post, Avatar é o último filme que comento neste ano. Acho que não poderia fechar de melhor forma. Não deixem as filas dos cinemas os desanimarem. O longa vale o esforço.

quinta-feira, 10 de dezembro de 2009

Retornando à blogosfera...

Foi preciso o amigo ICL me avisar: um mês sem atualizações!

Enquanto costuro ideias para um texto postável, mostro apenas um dos motivos por que o blog está meio parado. Estava ensaiando para minha primeira apresentação de flamenco. Olha a prova aí embaixo (todas as imagens são de Alex Hermes):









A apresentação ocorreu no dia 8 deste mês. Sucesso de público e de crítica, dizendo-se, de passagem, que público e crítica eram nossos familiares e amigos. ;o)

Check it out!


segunda-feira, 9 de novembro de 2009

Viver é como andar de patins



Estreei hoje o par de patins que ganhei. Há anos, muitos anos, que não patinava, então eram previsíveis toda a hesitação dos pés e todo o bamboleio do corpo tentando se equilibrar. Para completar, a amiga que convidei me deixou na mão, e aí foi o jeito me aventurar sozinha. Me, myself and I.

O que acabou sendo bom, porque foi dessa experiência que este post nasceu na minha cabeça, enquanto negociava os patins com o chão ora liso, ora esburacado da praça. O Forest Gump não disse que a vida era como uma caixa de chocolates? Pois digo que a vida é como andar de patins.

Na vida e sobre as rodas dos patins, há aqueles momentos em que você não sabe bem o que fazer. Como sair do lugar somente com seu próprio impulso? Como parar sem se atracar com um poste, com uma coluna, com um pobre desavisado transeunte? Como simplesmente parar?

Aí, se você refletir por uns segundinhos, descobre que só depende de você. Pode ser preciso um pouquinho de treino. Pode ser preciso muito treino. Mas, no fim, tudo se resume a você e à escolha de impulsionar ou frear.

Na vida e sobre as rodas dos patins, há aqueles momentos em que os acontecimentos ocorrem alheios à sua vontade ou expectativa, que nem a descida imensa que você ignorava estar no seu caminho. Como não cair? Como não terminar saindo da praça e indo parar no meio da rua, entre ou contra os carros?

Aí, se você não tiver medo, percebe que o melhor é se entregar. Deixar ir. Dá para chegar ao fim da ladeira e continuar no seu caminho se você estiver atento para fazer exatamente isso: continuar.

Na vida e sobre as rodas dos patins, há aqueles momentos em que você progrediu e não percebeu. Por que andar devagar está mais difícil? Por que ganhar velocidade se ainda estou aprendendo?

Aí, se você confiar em si próprio, entende que é melhor aderir ao movimento. Fica mais fácil se não lutar contra a tendência natural do processo. Basta colocar um pé no chão de cada vez e com fé. Basta não resistir, deixar o corpo todo acompanhar a dinâmica da coisa, compensar o alinhamento numa perna e noutra, abraçar a velocidade.

Na vida e sobre as rodas dos patins, há aqueles momentos em que você cai. É inevitável, por isso nem adianta perguntar como não cair. Todo o mundo sabe: dói pra burro.

Aí, se você se proteger, descobre que, se a queda é certa, pelo menos a dor pode ficar do tamanho que ela deve ser. Usando joelheira, você se machuca, mas não se incapacita. É uma questão de se cuidar. Fazendo isso, decepções são decepções, perdas são perdas, tristezas são tristezas. E só. Você permanece ileso. Ou talvez nem tão ileso, mas o tempo cura certo feridas reais.

Por fim, tanto na vida como sobre as rodas dos patins, depois da queda, você se levanta. Sozinho ou com ajuda de alguém, você se ergue.

E começa de novo.

De novo.

segunda-feira, 26 de outubro de 2009

Músicas Boas ou O que fazer para não fazer o dever de casa

Estava lendo o texto que vamos discutir amanhã na aula de francês. Quando vou preparar meus argumentos, surge a dúvida: como é que eu digo "lucro" en français? Aí ligo o computador para acessar meu super dicionário online (extremamente útil, por sinal), e aí bate a preguiça, a vontade de fazer qualquer outra coisa, e ouvir música é um ótimo substituto para a atividade de antes.

Alguém aí conhece Run do Snow Patrol? Foi o G. que me apresentou. É uma baita música. Adoro particularmente a parte de 4:30 a 5:22. Viajo nela.



Clipe da banda no YouTube: http://www.youtube.com/watch?v=83ITQsLv8Es

Run teve uma versão cantada por Leona Lewis, que o G. também me apresentou. Por mais que a introdução tenha ficado linda e por mais que a cantora tenha mais voz que o vocalista do Snow Patrol, lá para o fim a canção se torna pop-à-la-mariah-carey demais para o meu gosto. Que até que é pop às vezes, mas é que essa música tem mais alma na versão original. Pelo menos, eu acho.



Clipe dela no YouTube: http://www.youtube.com/watch?v=pcpWQC9prm0&feature=player_profilepage#. Os homens devem gostar especialmente dos atributos que arfam para fora do corselete apertadíssimo que a Leona veste.

Meses atrás, a C. me mostrou esta aqui do Coldplay. Lost! Muito boa.



E no domingo passado me peguei cantando essa aí. Pena que a Avril fica absurdamente gasguita no final dela. Ou em todas as suas outras músicas.



Pronto! Enrolei o suficiente. O lucro disso é que amanhã poderei acessar todas essas músicas lá no trabalho enquanto realizo minhas atribuições nada divertidas, a despeito do que meu chefe possa querer me convencer. É que o pessoal do setor de informática ainda não bloqueou o goear, um ótimo site de música.

Falando em lucro... pesquisei. É profit, que nem no inglês. Os anglo-saxões devem ter tomado emprestado esse vocábulo também.

sábado, 24 de outubro de 2009

Tá Chovendo Hambúrguer


Taí um filme que fui ver sem expectativa alguma. Talvez por isso ele tenha me agradado tanto.

De início, duvidei de como uma história sobre um inventor que consegue fazer chover comida pudesse ter meio e fim. Pelo trailer, já sabia qual era o começo: Flint, desde pequeno, descobrira sua vocação, e ela envolvia muita criatividade e ciência.

Mas o filme tem enredo, mesmo que não seja nada de excepcional. Tem uma história para contar, e o faz acenando para questões que vivemos cotidianamente, desde a busca de aceitação pelo outro e por si mesmo até o choque entre os mundos de gerações diferentes.

Aliás, para mim esse foi um dos momentos mais engraçados do longa. Se você já fez um esforço enorme para não perder a paciência com um parente mais velho tentando utilizar um computador, saberá do que estou falando.

Falar em graça enseja comentar o que me foi mais marcante em Tá Chovendo Hambúrguer. É um filme peculiarmente engraçado. Seu humor desafia um pouco uma classificação. É meio nonsense, politicamente incorreto, pastelão. É... inusitado. Surge inesperadamente. Pega de surpresa por ser absurdo, tão absurdo quanto encontrar um par de olhos neste rosto:


Como disse, peculiarmente engraçado.

terça-feira, 20 de outubro de 2009

Para se emocionar, aprender, sorrir e divulgar

Imagine ter um homem que lhe escreve emails como este:
Data: 17 de novembro de 2006 16h54min0s GMT-02:00
Para: Cristiana Guerra
Assunto: minha raquete nova

Hoje ganhei uma raquete nova.
Minha raquete nova é bonita, é bonita.
Quem me deu minha raquete nova foi o meu amor.

meu amor de raquete que meu amor me deu de gostosa que ela é

um beijo

outro beijo
um beijo
outro beijo
outro beijo
um beijo
beijo outro


amorzinho, eu te amo, viu?

Hoje é aniversário do Café com Letras. Vai ter festa a partir das 18:00 com a Gabi tocando. Vamos dar uma passadinha por lá? só pra dar uma saidinha.

bjbjbjbjbj

Ou como este:
From: guifraga
Date: Tue, 14 Feb 2006 10:20:05 -0200
To: Cristiana Guerra
Subject: dia lindo

amor, o dia tá lindo lá fora.
quando der, dê uma olhadinha pela janela, eu vou estar olhando também,
aí nos encontramos na beleza de tudo que a gente vê.

um beijo bom, amor. G

Imagine que você se descobre grávida desse homem, quando você já tinha colocado na cabeça que ser mãe não faria parte de seu futuro. Você conta esse dia assim:
[...] Parei o carro no mesmo lugar de sempre e, no caminho a pé até o local do exame, me lembrei de como eu e seu pai disfarçávamos a ansiedade antes de cada ultrassom. O primeiro deles foi o mais difícil. Insegura devido a dois abortos que tive no meu outro casamento e depois de ter tido um sangramento, eu tentava preparar seu pai para o pior. Nem deixei que ele curtisse inteira a delícia de saber que ia ser pai, tamanho era o meu medo de que ele sofresse uma decepção. Esperamos bastante até ser atendidos, mas na hora H vimos uma coisinha de sete milímetros cujo coração batendo se fazia ouvir em alto e bom som. Era você. Eu me lembro que seu pai segurava nos meus pés descalços e apertava meus dedos, enquanto eu chorava por finalmente ter “chegado lá”. Um outro coração batendo dentro de mim, isso era milagre. Ele chorou também, eu sei. E saímos do consultório como dois adolescentes. Nos abraçamos na porta e choramos mais, misturando soluços e risadas. No caminho de volta para o carro, um desses momentos em que a gente sabe direitinho o que é felicidade: aquele espaço rápido entre uma ansiedade e outra, entre um problema e outro, em que tudo parece perfeito. E é.

Então imagine que, restando dois meses para seu filho nascer, esse homem falece repentinamente, de um mal que nunca supôs ter.

Como dar a volta por cima?

É o que Cristiana Guerra faz todos os dias, compartilhando esse processo no blog para Francisco. Francisco é o lindo bebê que vai ganhar da mãe um dos blogs mais emocionantes que já vi. Cris explica o propósito do site dessa forma:
Um homem tem morte súbita, dois meses antes do nascimento do seu único filho. Assim nasce este blog. Tentando entender e explicar dois sentimentos opostos e simultâneos vividos pela viúva e mãe que, no caso, sou eu. Muitos questionamentos. Muitos raciocínios. Muito aprendizado. E uma pressa em falar para o Francisco sobre seu pai, sobre o mundo e sobre mim mesma (só por garantia).
Ainda estou lendo os textos de 2007, mas já descobri neles doçura, amor, dor e vontade de viver. Tudo expresso da forma mais sincera e singela. A cada post lido, fico admirada com a coragem de Cris Guerra. Coragem de assumir pensamentos ou dias ruins, como em Eu, rio de mim, Universo ao meu redor e Afogando. Coragem de viver e ser feliz, como em O ano da minha vida, Como música e em todos os outros posts que estão lá.

Quando escrevi a "resenha" para Up - Altas aventuras, deixei de comentar que o filme tocava um coisa que dói em mim antecipada e desnecessariamente, haja vista que é sentida por algo que nem aconteceu. É que sempre me compadeço da dor da viuvez. Graças a Deus, ainda não experimentei perder pais, irmão, tios ou primos. Tenho medo absoluto dessa dor. Mas a dor de perder marido ou esposa me parece tão... profunda. É dor diferente, é dor de perder alguém com quem você escolheu passar o resto da vida. Você escolheu. Não lhe foi dado, como lhe foi dado o pai, a mãe, o irmão, o tio ou o primo. Você escolheu. E lhe foi tirado. Achei no blog da Cristiana a expressão mais concreta desse sentimento no seguinte post:

O nome da dor

Eu tive pai e mãe. E os perdi cedo, conheço essa dor. Para mim, a perda do seu pai dói muito diferente. Ele não era de onde eu vim. Era para onde eu ia.

Puxa.

Depois de tudo, desnecessário dizer, mas aí vai de qualquer forma: vale muito a pena conferir.

p.s.: Dando crédito a quem o merece: descobri o para Francisco no Blog da Silmara Franco.