terça-feira, 8 de fevereiro de 2011

Sobre fichas, pesos e metáforas


Resolvi fazer musculação. De certa forma, foi uma vitória sobre uma resistência antiga. Tinha uma péssima imagem de academia: a velha ideologia católica condenava um lugar tão voltado para a vaidade. Na verdade, eram falsas a imagem e a ideologia. Há pessoas que frequentam academia buscando saúde. E pode ser que algum outro catolicismo diferente do que me ensinaram não rejeite a vaidade. Além do mais, que mal há em querer ser sarado?

Pois bem. Na primeira semana de janeiro, lá estava euzinha na academia. No primeiro dia, o professor não elaborou logo a ficha de musculação. Passou os exercícios e avaliou minhas condições em fazê-los (e até desconfio que ele subestimou meus quatro anos de pilates, rs). No segundo dia, ele já estava com a ficha em mãos. Vi-a de relance, porque era dia de treino funcional e não necessitava dela. Quando foi guardá-la no fichário, o professor perguntou se devia colocar no A ou no R. Como só tinha visto o anverso da ficha, e lá constava apenas Raquel, respondi que a deixasse no R.

Aí o terceiro dia de malhação caiu no sábado, e agora uma professora estava lá. Procurei minha ficha e nada. Quando a avisei disso, ela consultou algumas fichas que se encontravam sobre a mesa, perguntou qual era meu nome e, com minha resposta, me entregou uma delas.

Continuei a malhar seguindo as séries de exercícios indicadas. Na quarta semana, calhei de olhar o verso da ficha, assim de bobeira. Estava escrito Raquel Mateus. Vixe, o professor escreveu meu nome errado, pensei. Na maior das boas intenções, pedi uma caneta emprestada à atendente, risquei o Mateus e escrevi Montenegro. Prontinho. Ficha riscada, mas devidamente identificada.

Então, no dia seguinte, imagine minha surpresa ao ver o Raquel Montenegro coberto por corretivo e um RAQUEL MATEUS escrito garrafal e reivindicatoriamente. Meu Deus! Eu estava malhando há um mês com a ficha alheia e ainda a tinha rasurado! Mostrei ao professor e então encontramos a correta, guardadinha no A de Ana. Na realidade, nem eram tão diferentes o meu treino e o da Raquel Mateus, mas como ela quer emagrecer, era melhor não compartilharmos mais a mesma ficha sob pena de eu acabar com a silhueta de um retirante da seca.

Contei o episódio para minha analista e ela pediu que eu extraísse uma metáfora disso. Fechei e abri os olhos, franzi a testa, olhei fixamente o tapete... arrisquei uma que já sabia que não era muita boa. Ela então veio com esta (que não reproduzo ipsis litteris):

Quando não sabemos quem somos, levantamos pesos que não são nossos.

Olha só que Verdade. Quantas formas de pensar ditam nossas condutas e sequer são o que realmente pensamos das coisas? Crescemos ouvindo opiniões e assimilando padrões que nos cerceiam sem que percebamos. Minha própria aversão a ambiente de academia era um exemplo disso. O interessante é que isso acontece desde um nível mais abrangente, que vou chamar cultural, até aquele mais subjetivo, decorrente da educação que recebemos. Quanto dessa Ana Raquel que sou hoje teria uma Ana Raquel que houvesse nascido no Afeganistão?

Pior ainda é quando, além de nossos comportamentos, os pesos dos outros determinam quem somos. É muito fácil nos deixarmos ser definidos pelos rótulos que terceiros nos atribuem. Para nos livrarmos dessa carga, só mesmo autoconhecimento. Acredito que há um núcleo que sou só eu, sem pensamentos, opiniões, julgamentos ou padrões adquiridos ao longo do tempo. Minha essência.

E essência não tem peso.

6 comentários:

b arrais disse...

Adorei a metáfora! Bela sacada da sua analista, Raquel.

Anônimo disse...

Excelente!
ICL

Henrique disse...

Legal demais! Que sacada mesmo. Conheço até uma frase dessa, que tá no livro Alice no país das maravilhas. Mas, mesmo lendo o post, não fui capaz de lembrar. Esse pessoal tem um feeling...

a passagem é mais ou menos assim: Alice pergunta qual caminho deve tomar para sair dali, ao que o gato responde que depende de onde ela quer ir. Ela diz que não importa muito para onde, pq o que quer mesmo é ir embora. Aí o gato diz: então não importa o caminho que você vai tomar...

abçs!

Márden disse...

Legal... A vitória e a sacada. Bj

Euclides Vega disse...

Gostei bastante da metáfora, mas gostei mais ainda da decisão da Mateus em reclamar o que é dela. Mulher de fibra, hahaha

Garota D disse...

Parabéns pela conquista e pela descoberta! Vou guardar a sacada e lembrar dela todas as vezes que achar que estou carregando mais peso do que posso suportar.

=D