quinta-feira, 5 de maio de 2011

Diário da outra


Querido Diário,

Hoje cruzei com a Nicole no corredor durante o intervalo. Percebi o que tantos falam sobre ela. De fato, Nicole é muito bonita. Os meninos dizem que ela é gata e gostosa. Ela tem os cabelos muito lisos (faz escova todos os dias?), sabe usar maquiagem, incrementa o uniforme com um lencinho no pescoço, ocupa todo o braço com pulseiras.


Após passar por ela, acabei olhando sem querer meu reflexo no vidro da sala da coordenação, que fica no fim do corredor. Devo dizer, Querido Diário, que eu sou mais eu. Me achei bonita também. Me achei natural e solta, sem a necessidade de cabelo esticado, lenço no pescoço e pulseira. Lembrei que, tal qual Nicole, também sou única. A diferença é que a Nicole nem deve saber disso (que ela também é única). Caso contrário, não faria tanto esforço para parecer com modelos ou atrizes. Me dei conta que só eu tenho os amigos que tenho, a família que tenho, o cachorro que tenho. Somente eu escrevo as redações que escrevo, ouço os problemas dos colegas como ouço, sorrio como sorrio. Putz, Querido Diário, eu sou mais eu!


Quando o sinal tocou, chegou a hora da aula de Física. Ao contrário do que os colegas esperavam, não tirei a maior nota na prova e não soube a resposta para a pergunta do professor. O legal nisso tudo, Querido Diário, foi que não achei que os colegas ou que o professor estavam decepcionados comigo, porque entendi que isso era o que eu sentia, e não eles. A ficha caiu, sabe? Não preciso tirar a maior nota. Não preciso saber todas as respostas. E, se eu tirar a maior nota, posso sim me sentir a tal, mas, se tirar nota baixa, não preciso me sentir a pior das criaturas. Afinal, eu sou eu. Só isso e muito isso. Simples assim.

É claro que hoje teve aula de balé. Experimentei não olhar para o chão e tentar ver meu reflexo no espelho sem sentir vergonha. Daí me ocorreu que a questão não é me olhar e não ter vergonha, mas não ter vergonha de mostrar o quanto sou boa. Não existe outra pessoa me julgando 24 horas do dia a não ser eu. Aliás, os outros podem até me julgar, mas eles raramente entendem que julgam a si mesmos enquanto refletidos em mim. Então, por que mesmo me conter tanto? Por que não me soltar e dançar sentindo a música? Por que não assumir que posso fazer isso?

Aí fiz exatamente isso e me senti muito bem. Não sei se era o entusiasmo, mas consegui executar todas as piruetas duplas que a professora pediu. Só que escorreguei num momento e caí de bunda no chão. Foi uma senhora queda, mas ela não anulou as outras tantas piruetas que havia executado. Fui pra casa feliz.


Então, Querido Diário, já é noite e já é tarde. Foi um dia muito produtivo. Me encontrei. E isso pode ficar entre mim e você.


Ou não. Quem sabe um dia não escrevo um livro e exponho este texto?

Não fui essa pessoa na adolescência. Ainda não sou essa pessoa agora.

Mas essa é a outra que posso ser.

Que outro você pode ser?

3 comentários:

b arrais disse...

Eu tô bem sendo esse eu daqui mesmo. Já tentei ser outros, mas descobri que o melhor era ser eu mesmo... foi preciso tempo, muito tempo, e mudanças, muitas mudanças, mas eu venho sendo eu já faz um tempinho e tá funcionando bem. :D

Euclides Vega disse...

Gostei bastante, e fiquei pensando em cisne negro e em quem diacho era a nicole, hahaha.
Sério, muito bom.

Luciana disse...

Adorei! Queria eu ter tido essa sacação 20 anos atrás... ;-)