
Mas é claro que fiquei paralisada também pela força do filme. Houve um diálogo entre Justine e o noivo que me deixou suspensa durante todo o longa e me assombrou o resto do final de semana. De resto, o filme inteiro me foi tão impactante quanto o próprio planeta Melancolia.
Porque, no fim, acredito que é disso que trata o filme: de deixar-se impactar pela melancolia. Desconfiei um pouco de minha conclusão, pois me parece ligeiramente simplista, mas a ameaça de colisão de Melancolia com a Terra nada mais é do que a metáfora para a sujeição a esse sentimento que nos acomete. Enquanto assistia ao filme, sempre me vinha à mente como, na língua inglesa, o verbo strike é empregado tanto para se referir literalmente a uma colisão (para aproveitar o enredo do longa, The planet Melancholia will strike the Earth) quanto a ser atingido por uma emoção (e.g. Melancholia struck Justine the minute her mother opened her mouth).
E eis que a melancolia realmente atinge todos. Justine e ela já são velhas conhecidas. Espíritos afins, como me pareceu sugerir aquela cena em que a personagem de Dunst se banha da luz do planeta. É curioso ver que, a partir do momento em que Melancolia se aproxima da Terra, os outros saem de suas órbitas ao se renderem ao medo, mas é Justine que permanece centrada. Ela já conhece aquele mundo; somos nós que trepidamos ao sermos apresentados a ele.
Aparentemente, nada resiste à melancolia. Não é de forma alguma um prognóstico animador, mas não deixa de ser uma realidade, pelo menos enquanto estamos imersos no sentimento. Pelo pouco que li de von Triers, foi a realidade que ele viveu por algum tempo. Não o culpo por tentar dar vazão à sua angústia. Li uma resenha que comparava os filmes Melancolia e Árvore da Vida, e terminava por julgar este superior por não ser, digamos, niilista como aquele. Sinceramente, é uma questão de escolha sobre a que se atribui sentido. Podemos ter uma experiência positiva se entendemos, por exemplo, que a lição está em se fazer exatamente o contrário do que é mostrado na tela. Neste aspecto, Melancolia pode até ser pedagógico se compreendermos que não devemos agir como suas personagens.
O filme me pareceu quase um thriller. Fiquei impressionada como algo tão intimista pudesse me causar suspense. Durante a primeira parte, uma vez que acreditei fosse verdadeira a alegria em que Justine se encontrava no início da projeção, fiquei intrigada com as falas das personagens e com aquelas pequenas pistas. Quando Justine começa a sucumbir à tristeza, os diálogos sugerem algo que já estava lá, mas que não víamos, e pouco a pouco a depressão crônica de Justine é revelada. Kirsten Dunst é maravilhosa ao demonstrar isso apenas com o olhar.
Às vezes, a maioria das vezes na verdade, reluto muito em recomendar qualquer filme. É sempre uma questão de gosto e de história de vida, que tem de achar alguma ressonância naquilo que é projetado na tela de cinema para justificar a simpatia por uma obra. Não recomendo o filme de Lars von Trier sob hipótese alguma. Quem quiser vê-lo, faça por sua conta e risco. Por outro lado, ao contrário do que aconteceu com Árvore da Vida, pelo menos soube que gostei de Melancolia. Assistiria de novo se não fosse o medo da náusea... se bem que tenho sempre uma caixa de Dramin à mão. ;o)