Em primeiríssimo lugar, apesar de ser algo bem óbvio, aviso que o que está neste post é somente minha opinião.
Hoje não possuo religião. Fui católica por um bom tempo, mas sempre me inquietava por não ter a fé que via nos meus familiares. Ia à missa todos os domingos, observava pessoas ajoelhadas num genuflexório olhando com fervor imagens, e não entendia por que não era daquele jeito comigo também. A não ser que estivesse em algum aperto, rezava mecanimente. Até que aconteceu algo na minha vida que me fez me sentir indigna de pedir qualquer coisa a Deus e então parei de rezar. Meses depois, enquanto estava no Treinamento Básico de Renascimento, percebi que espiritualidade era algo bem maior do que seguir uma igreja, e descobri que só era católica por causa de minha família. Foi com um aperto no estômago que anunciei à minha mãe que não iria mais à missa. O alarde foi bem menor do que esperei. Não sei bem o que isso significou para meus pais e meu irmão, mas me parecia que era aquele o caminho que eu devia percorrer.
Continuando com os trabalhos de Renascimento e Kyol Che, entrei em contanto com fundamentos que devem fazer parte de religiões orientais. Foi interessante. Descobri que preciso experienciar algo para acreditar (chamo isso de minha síndrome de são-tomemismo), e é possível experimentar através da meditação ou da respiração muitas coisas sobre que os orientais discursam. Porém, semprei estanquei no conceito de que vivemos várias vidas. Então percebi que, mesmo ali, eu não comprava o pacote inteiro.
Diante desse fato, ficou claro para mim que tudo o que eu fizesse naquelas linhas seria somente a título de terapia. Faço porque me faz me sentir bem e centrada. Leio livros de "guias espirituais" como livros terapêuticos. Para mim, religiões são formas de ver a vida e de conviver com o meio. E me questiono.
Me questiono se elas exigem mais do que podemos dar ou se negam nossa condição humana. Uma amiga minha foi diagnosticada com câncer recentemente. Não tenho dúvida de que a raiz da doença se encontre no casamento infeliz que vive, que ela provavelmente nunca desfez porque recebeu a orientação de que "o que Deus uniu o homem não separa". Pregar que temos de aguentar qualquer tipo de provação em nome de uma união realizada perante um altar me parece ser a negação de um amor próprio ou de um instinto de sobrevivência. Ou é simplesmente destituir a pessoa da capacidade de ter o bom senso de fazer o que é melhor para si, escolha que sempre depende do contexto e da história de vida de cada um.
Diante de certos acontecimentos recentes, me perguntei se estaria pronta para morrer caso algo acontecesse. Não. De forma alguma. Pelo que entendi dos fundamentos orientais, isso ocorre porque estou muito apegada a esta forma de vida. Pois estou mesmo. O fato de que posso retornar não significa nada para mim porque, se isso de fato existe, não será para esta vida que voltarei.
Aí leio
esta matéria sobre Steve Jobs e percebo que é possível para outras pessoas caminhar em busca do desapego. Lembro da dimensão ética que o catolicismo possui. E me ocorre que as religiões são desumanas porque nos remetem a algo superior a nós, mas o fazem com o propósito de transcendermos nossa pequenez. Talvez o problema é que não saibamos agir compassivamente com nós mesmos, porque, em face da incapacidade natural de seguirmos certos conceitos, construímos sentimentos de culpa ou desvalor. Talvez seja necessário não abdicarmos de nossa própria opinião em favor de uma crença de forma que continuemos inteiros e fiéis a nós mesmos (acho que nunca conseguirei acatar a doutrina do pecado original).
Talvez religiões nos sirvam somente enquanto nos tornem éticos e felizes.