terça-feira, 24 de julho de 2012
Valente
Gosto tanto da Pixar, que já se tornou um princípio meu assistir às suas animações. Como um comando inexorável, se estreou um filme da companhia, lá estarei euzinha no cinema para conferir. A humanidade e a ternura em filmes como Up e Ratatouille endossam minha crença de que há sempre uma lição sobre nossa natureza nos longas da equipe Pixar. Que eles transmitam essas mensagens com humor e excelência gráfica é ainda mais um fator para justificar minha admiração.
Foi essa fé na Pixar que me fez assistir a Valente. O trailer havia me sugerido uma história clichê. O longa me confirmou isso. No entanto, há algo mais em Valente que supera o lugar comum e que abriga todo o valor do filme. E somente percebi isso quando li a resenha de Isabela Boscov na Veja.
Minha cegueira se deveu muito a um costume bem corriqueiro: perder o foco (sabe aquela miopia, rs?). Em Valente, me detive tanto na relação entre mãe e filha, que julguei rasa em comparação com a explorada em Enrolados, que não percebi a mudança de paradigma que o filme oferece às meninas.
É que, pela primeira vez em uma animação que trata de reis e rainhas e sua linha sucessória, encontramos uma princesa sem príncipe. Aliás, o melhor: uma princesa que não quer ter um príncipe. Valente não contribui com o imaginário feminino de que a felicidade somente se encontra em par (sem falar que esse par é ainda um ser perfeito, idealizado) ou que nosso objetivo último é a construção de uma família.
Aqui faço uma digressão. Enquanto escrevia o parágrafo acima, lembrei de um episódio que aconteceu há alguns meses. Reencontrei uma conhecida que não via há mais de onze anos. Jurava que ela era mais nova do que eu, mas na conversa descobri que tínhamos a mesma idade. Quando a ouvi falar da filha e do esposo, o sentimento de demérito foi instantâneo: me achei fracassada por não ter o mesmo. Quase ganhei mais dois anos de psicanálise por causa disso, rs, mas foi interessante ver como essa crença está enraizada, por mais que racionalmente a gente saiba que não faz sentido. Aí fica visível que é nesse momento que somos produto do meio. É nesse instante que o elemento cultural que nos compõe se evidencia.
Pois bem, voltando à Valente, acho imensamente salutar que exista um novo exemplo para nossas meninas. Quem sabe assim elas cresçam sabendo escolher o que desejam de verdade. Que bom que um filme protagonizado por uma princesa reafirme a importância de sermos fiéis a nós mesmos na busca de nossa felicidade. Com ou sem príncipe.
segunda-feira, 16 de julho de 2012
Escolhas
(Não, não é sequência de A loja de experiências. Este é um texto que ficou engavetado por muito tempo, mas que agora o presente me permite arrematar.)
Sentada na areia, observou o garotinho que se aproximava. Ultimamente percebia uma mudança. Sempre quisera uma menina: já havia escolhido até o nome. Se fosse menino, e ela nunca pensou que seria um, havia uma opção de que gostava, mas a cunhada se antecipara. Tinha de pensar em outro.
A criança chegou mais perto, mas ainda assim não soube adivinhar a idade dela. Qualquer coisa que dependesse dos seus olhos restava mal avaliada. Seu olhar era mais que míope para tantas coisas e detalhes. Parecia que sempre apreendia uma visão geral e inexata das coisas.
O menininho a alcançou e
parou meio desconfiado. Ela usou seu melhor sorriso, mas ele ainda a
espiava como se não entendesse. Quando acenou com os dedos, ele
gargalhou, rodopiou e correu na ponta dos pés em direção aos pais, num
desafio à gravidade que só as crianças sabem propor.
Percebeu a mudança de novo, a intuição de que o primeiro filho seria homem. Em regra, não acreditava em intuição. Recendia a palpite romantizado. No entanto, era bom sentir que acolhia também a possibilidade de um menino. E o nome?
Suspirou, levantou-se, sacudiu a areia da roupa e lançou a última olhada para o mar. Estava adiantando as coisas. Nem grávida estava, nem casada estava. Na realidade, nem feliz estava. Permanecia imobilizada num status quo de sentimentos que suspeitava não serem correspondidos pelo parceiro. Como o olhar era mais que míope, não enxergava o tamanho da desproporção que havia, mas sentia o vazio mal disfarçado do outro.
"Graça começou um novo caminho", Séfora anunciou sem palavras. As outras duas duvidaram do prognóstico. Graça costumava insistir teimosamente. Devia ser aquele olhar meio míope.
"Você diz isso porque ela se sente triste? Ela nunca desistiu por causa disso", questionou Sílfide enquanto observava inúmeros fios etéreos enlaçarem-se e desenlaçarem-se. A todo momento, milhões de humanos faziam escolhas que transformavam suas vidas. Cada opção descartada era um fio que se desembaraçava de uns para se juntar a outros. Cada nova possibilidade era um fio em um novo arranjo. Ali, num lugar que não era espaço, vidas se constituíam continuamente, e a dança dos fios mostrava os caminhos que seriam trilhados.
"Ela pressentiu que o primeiro filho será homem. Isso não faz parte do caminho atual", retorquiu Séfora. "Essa possibilidade só é tangível se ela abandonar o caminho atual. Está em outro fio."
"O parceiro dela também mudou de caminho", observou Sofia. Apontou com o dedo de estrelas. Um fio se desvinculava de outro, que estremeceu, estremeceu, e depois se imobilizou.
"Parece que Graça finalmente desistiu", sorriu Séfora, e os dentes eram sóis.
O fato inédito estancou as três momentaneamente, suspensas na curiosidade de como Graça procederia.
Quatro fios se aproximaram como se para formar um novo arranjo. Ondulavam cheios de promessas, mas nenhum se cingiu a outro.
"Ah, que bom. Ela percebeu. Ela reencontrou o poder de seguir sozinha," observou Sofia.
Lentamente outros fios se juntaram aos quatro, mas também não se uniram. Resplandeciam de possibilidades. Sílfide aprovou. "Vejam só quantos caminhos. Que pontencialidade."
É nessas horas que a Existência se encanta consigo. Vida é bonita demais, as três sabem. Entendem a beleza da vontade e o palpitar da superação. A prova é esse reluzir de segundas e terceiras e enésimas chances de felicidade.
Oniscientes, Séfora, Sílfide e Sofia captaram o nascimento de uma mudança.
Em algum lugar que era espaço, uma decisão tomada.
Um fio enlaçou outros dois, como se um único intento se houvesse cumprido.
Os dois fios se aproximaram.
"Olha, olha a serenidade dela. Olha as escolhas feitas pelos motivos certos. Pela verdade de si mesma," admirou-se Sofia.
Os dois fios se entrelaçaram. Um novo caminho constituído, que pincelou um sorriso de aprovação nas três e fez o cosmos cintilar milionesimamente.
Num lugar que era espaço, no tempo dos mortais, Graça segurava a mão de alguém, sentindo a novidade da situação. Sentados à beira de uma lagoa, olhavam o ondular das águas, quando ela confidenciou:
"Você era tudo o que eu queria."
Ele respondeu:
"Você era tudo o que eu precisava."
E o Universo ensinou-lhes o significado da leveza de ser dois.
Obs.: Séfora, Sílfide e Sofia foram inspiradas nas Moiras da mitologia grega, mas preferi não utilizar essas personagens míticas porque me pareceram bem sinistras, rs. Então somente aproveitei a ideia dos fios e das deusas... e como vocês podem ver, Séfora, Sílfide e Sofia, ao contrário das Moiras, não intervêm na vida dos humanos. Isso fica mais próximo também de qualquer conceito que o meu ceticismo possa ter de divindade.
Sentada na areia, observou o garotinho que se aproximava. Ultimamente percebia uma mudança. Sempre quisera uma menina: já havia escolhido até o nome. Se fosse menino, e ela nunca pensou que seria um, havia uma opção de que gostava, mas a cunhada se antecipara. Tinha de pensar em outro.
A criança chegou mais perto, mas ainda assim não soube adivinhar a idade dela. Qualquer coisa que dependesse dos seus olhos restava mal avaliada. Seu olhar era mais que míope para tantas coisas e detalhes. Parecia que sempre apreendia uma visão geral e inexata das coisas.
Percebeu a mudança de novo, a intuição de que o primeiro filho seria homem. Em regra, não acreditava em intuição. Recendia a palpite romantizado. No entanto, era bom sentir que acolhia também a possibilidade de um menino. E o nome?
Suspirou, levantou-se, sacudiu a areia da roupa e lançou a última olhada para o mar. Estava adiantando as coisas. Nem grávida estava, nem casada estava. Na realidade, nem feliz estava. Permanecia imobilizada num status quo de sentimentos que suspeitava não serem correspondidos pelo parceiro. Como o olhar era mais que míope, não enxergava o tamanho da desproporção que havia, mas sentia o vazio mal disfarçado do outro.
"Graça começou um novo caminho", Séfora anunciou sem palavras. As outras duas duvidaram do prognóstico. Graça costumava insistir teimosamente. Devia ser aquele olhar meio míope.
"Você diz isso porque ela se sente triste? Ela nunca desistiu por causa disso", questionou Sílfide enquanto observava inúmeros fios etéreos enlaçarem-se e desenlaçarem-se. A todo momento, milhões de humanos faziam escolhas que transformavam suas vidas. Cada opção descartada era um fio que se desembaraçava de uns para se juntar a outros. Cada nova possibilidade era um fio em um novo arranjo. Ali, num lugar que não era espaço, vidas se constituíam continuamente, e a dança dos fios mostrava os caminhos que seriam trilhados.
"Ela pressentiu que o primeiro filho será homem. Isso não faz parte do caminho atual", retorquiu Séfora. "Essa possibilidade só é tangível se ela abandonar o caminho atual. Está em outro fio."
"O parceiro dela também mudou de caminho", observou Sofia. Apontou com o dedo de estrelas. Um fio se desvinculava de outro, que estremeceu, estremeceu, e depois se imobilizou.
"Parece que Graça finalmente desistiu", sorriu Séfora, e os dentes eram sóis.
O fato inédito estancou as três momentaneamente, suspensas na curiosidade de como Graça procederia.
Quatro fios se aproximaram como se para formar um novo arranjo. Ondulavam cheios de promessas, mas nenhum se cingiu a outro.
"Ah, que bom. Ela percebeu. Ela reencontrou o poder de seguir sozinha," observou Sofia.
Lentamente outros fios se juntaram aos quatro, mas também não se uniram. Resplandeciam de possibilidades. Sílfide aprovou. "Vejam só quantos caminhos. Que pontencialidade."
É nessas horas que a Existência se encanta consigo. Vida é bonita demais, as três sabem. Entendem a beleza da vontade e o palpitar da superação. A prova é esse reluzir de segundas e terceiras e enésimas chances de felicidade.
Oniscientes, Séfora, Sílfide e Sofia captaram o nascimento de uma mudança.
Em algum lugar que era espaço, uma decisão tomada.
Um fio enlaçou outros dois, como se um único intento se houvesse cumprido.
Os dois fios se aproximaram.
"Olha, olha a serenidade dela. Olha as escolhas feitas pelos motivos certos. Pela verdade de si mesma," admirou-se Sofia.
Os dois fios se entrelaçaram. Um novo caminho constituído, que pincelou um sorriso de aprovação nas três e fez o cosmos cintilar milionesimamente.
Num lugar que era espaço, no tempo dos mortais, Graça segurava a mão de alguém, sentindo a novidade da situação. Sentados à beira de uma lagoa, olhavam o ondular das águas, quando ela confidenciou:
"Você era tudo o que eu queria."
Ele respondeu:
"Você era tudo o que eu precisava."
E o Universo ensinou-lhes o significado da leveza de ser dois.
Obs.: Séfora, Sílfide e Sofia foram inspiradas nas Moiras da mitologia grega, mas preferi não utilizar essas personagens míticas porque me pareceram bem sinistras, rs. Então somente aproveitei a ideia dos fios e das deusas... e como vocês podem ver, Séfora, Sílfide e Sofia, ao contrário das Moiras, não intervêm na vida dos humanos. Isso fica mais próximo também de qualquer conceito que o meu ceticismo possa ter de divindade.
sexta-feira, 6 de julho de 2012
A loja de experiências (parte II)
(parte I aqui)
(continuando...)
(continuando...)
Um
frasquinho guardava uma nuvenzinha tão vermelha e nervosa que chamou sua
atenção. Ficou na ponta dos pés para ler a etiqueta:
Experiência 127846
X relata sua conduta em um ambiente de
trabalho hostil e de que como foi traída por pessoas em que confiava. Motivo
indicado por X para a venda desta experiência: “Quero que as pessoas aprendam a
não ser ingênua como fui e que consigam vencer na vida.”
Especulou
se o fornecedor dessa experiência conseguiu afinal vencer na vida. Aquela era
uma lição provida por alguém que amarga derrotas até hoje ou que colhe os
frutos do seu aprendizado?
Sentiu
um certo incômodo e o lampejo de um pensamento por demais fugaz para se fazer
concreto em sua mente. Restou a certeza de que era uma dúvida sobre o que viera
fazer ali, mas o raciocínio se perdeu antes de tornar-se claro.
A
terceira etiqueta que leu falava de como o fornecedor enfrentara a morte de um
ente querido. Essa lhe pareceu mais útil. A inevitabilidade da morte assegurava
que aquela era uma experiência válida de ser experimentada por mais
desagradável que fosse. Desistiu, no entanto, quando estendeu a mão para pegar
o frasco em que a fumaça negra era quase líquida. Não parecia certo comprar
essa experiência. Havia um motivo por trás dessa hesitação, mas não soube
precisá-lo porque de novo o pensamento lhe escapara antes de totalmente
formulado.
Algumas
etiquetas depois, percebeu que não vira ainda alguma experiência boa, feliz e
salutar para vender. Havia desilusões amorosas, decepções, conflitos
familiares. Aos montes. Colocou as mãos na cintura e balançou a cabeça.
Sentia-se ligeiramente frustrada.
– E
aí? Já escolheu o que vai levar?
Era
a moça que tinha voltado e que a aguardava com um ar também ligeiramente
impaciente.
– Não
tem nenhuma experiência alegre? – perguntou sem esperanças.
– Bom,
tem aquela ali.
A
moça apontou para um frasco que ficava na prateleira mais próxima ao chão,
perto da porta de saída. Dentro dele, uma fumacinha dourada cintilava.
– Ah,
finalmente um raio de luz em meio às trevas – brincou sério enquanto se
agachava para ler a etiqueta.
Experiência 561493
X relata certos obstáculos que enfrentou e
venceu. Motivo indicado por X para a venda desta experiência: “Quero mostrar que
somos responsáveis pelas dádivas que recebemos na vida.”
O
lampejo de novo, mas desta vez agarrou o pensamento antes que fosse, e ele
tomou forma e fez sentido. Não adiantava comprar aquelas experiências em busca
de sapiência e fuga da dor cotidiana. Em primeiro lugar, nada garantia que não
cometesse os mesmos erros que os fornecedores caso deparasse com alguma
situação semelhante. A equação era até simples: ela era diferente daquelas
pessoas, logo não carregava consigo as mesmas variáveis que influenciaram nas
escolhas que os fornecedores fizeram – ou que continuavam a fazer, mesmo depois
de engarrafar suas memórias e sentimentos. Quem poderia assegurar que os
fornecedores aprenderam com seus erros? Quem poderia assegurar que ela
aprenderia? Pelo modo como apresentavam seus motivos para a venda das
experiências, todos pareciam derrotados que se esforçam para revelar erros em
batalhas que desistiram de travar.
Todos
exceto o fornecedor da única experiência alegre.
Em
segundo lugar, talvez nada substituísse o valor de uma experiência unicamente
sua. Ou talvez nada acolchoasse golpes inevitáveis da vida tais como a morte. Talvez
erros devessem ser cometidos. Talvez todos tivessem de aprender a conviver com
uma ausência. Ninguém ali incentivava os compradores a realmente viver.
Ninguém
exceto o fornecedor da única experiência alegre.
Ninguém
exceto o fornecedor da única experiência alegre e ela.
– Eu
decidi o que eu quero – anunciou à moça.
– Você
vai levar essa aí? – indagou a moça enquanto se aproximava da prateleira perto
da porta.
– Não.
Quero vender a minha experiência de ter vindo aqui hoje.
Sentiu
uma enorme satisfação em ver a moça atônita.
– Eu
posso vender, não posso? – perguntou doce e sonsamente.
– Claro,
claro – respondeu a moça enquanto se encaminhava para um minúsculo balcão no
canto da salinha. – A senhora vai preencher primeiro uma ficha dizendo por que
a senhora quer vender essa experiência. Depois a senhora me acompanha ali pra
dentro e a gente faz o procedimento e descreve a experiência para constar na
etiqueta – explicou a moça ao vasculhar uma gaveta, achar um bloquinho de papel
e destacar uma folha.
– Aqui
está – a moça foi solícita e entregou uma caneta juntamente com a ficha.
– Obrigada
– disse enquanto preenchia o campo indicado entre aspas.
Motivo indicado por X para a venda desta
experiência:
“Quero que as pessoas vivam.”
E
seguiu a moça para além da outra porta do recinto.
Obs.: Prontinho! Agora é colocar a cachola pra funcionar e revisitar a loja de experiências. Bora ver se o texto sai logo, né? :o)
quinta-feira, 5 de julho de 2012
A loja de experiências (parte I)
Finalmente
encontrara o número 36 da travessa Michelin, invisível até no Google Maps. Receou tocar a campainha
porque não encontrou placa alguma que anunciasse a loja procurada, mas, a bem
da verdade, o produto comercializado era absurdamente incomum para ser compreensivelmente
resumido em um nome ou frase. Afinal, quem entraria em uma casa onde se lesse
“Vendem-se experiências”?
Uma pessoa que viveu eternamente dentro de
uma redoma, respondeu a si mesma e absolutamente consciente de que era ela o
espécime em questão. Um
sorriso de autodepreciação acompanhou o movimento de pressionar o interruptor. Um
segundo antes de a porta abrir-se, percebeu que não sabia sequer como perguntar
se aquele realmente era o lugar.
Inquietação
inútil, porque a moça que acabara de girar a maçaneta e de oferecer-lhe a visão
de um cômodo cheio de prateleiras com frasquinhos de geleia, perguntou solícita
se ela estava ali para comprar experiências.
– É.
– Pode
entrar. Fique à vontade.
Ela
sorriu apertado e ajustou a alça da bolsa que trazia a tiracolo. Enquanto a
moça fechava a porta, percebeu que os recipientes não continham geleia, mas uma
névoa que se distinguia em cor e densidade em todos os potinhos que seus olhos
checavam.
A
moça foi providencialmente solícita mais uma vez:
– Você
vai perceber que nenhum frasco contém a mesma coisa.
Ou
talvez nem tão providencialmente assim.
– É,
percebi. Essa fumacinha aí dentro é a experiência?
– É
sim. Na prateleira tem uma etiqueta indicando a experiência que cada frasco
contém. Você já sabe o que quer?
– Ainda
não. Vou só dar uma olhadinha, tá?
– Fique
à vontade.
Demorou
um minuto para perceber que não ficaria à vontade enquanto a moça estivesse
ali, de mãos para trás, observando-a ler as etiquetas. Sentiu um ímpeto de sair
e voltar quando tivesse a certeza do que precisava.
Um
telefone tocou atrás da outra porta do recinto, e a moça finalmente a deixou.
Ressentiu-se com o serviço oferecido pela funcionária: era de esperar-se que
soubesse tratar melhor alguém tão inapto que precisava comprar experiências
alheias para ver se funcionava melhor na vida.
Aproveitando
sua liberdade temporária, aproximou-se mais das prateleiras. Em frente a um
frasco no qual um vapor acinzentado espiralava, leu a seguinte informação:
Experiência 012659
X relata que ela e Y eram amigas até se
interessarem por Z. Z escolheu Y. X tentou continuar amiga de ambos, mas
percebeu que era doloroso demais. Motivo indicado por X para a venda desta
experiência: “Quero mostrar os erros que cometi quando tentei preservar minha
amizade com Y, mas que me levaram a perder Z.”
Entortou
o nariz para esse recipiente. Era tão clichê. No entanto, intrigante observar
de perto como o comércio de experiências funcionava. Quando descobriu o site da loja na internet, leu as
informações constantes na página, mas nada comparava a ver as experiências
condensadas e descritas em termos impessoais para preservar a privacidade dos
seus fornecedores.
A
loja comprava e revendia as experiências de vida de quem as desejava vender.
Não foi informado no texto da homepage se
os ditos fornecedores, as pessoas que haviam experienciado eventos em suas
vidas que julgavam úteis para o aprendizado dos outros, perdiam ou não a
memória daquilo que vivenciaram ao vendê-lo. Mas estava bem esclarecido que quem
comprasse a experiência de um determinado fornecedor teria acesso às memórias
dele, seus sentimentos, suas conclusões e observações acerca do que se passara.
O grande lance era que o comprador adquiriria de uma só vez a sabedoria obtida
por outro através de um longo processo de encontros e desencontros. Com esse
conhecimento, era muito mais provável que o comprador não cometesse os mesmos
erros que o fornecedor cometera caso a vida ironicamente lhe apresentasse uma
situação semelhante. Era melhor do que receber conselhos, porque, ao experimentar
algo de outrem, o comprador sentiria na pele tudo o que fora vivido. Era,
portanto, didaticamente mais eficiente.
E, de
qualquer forma, ninguém segue conselhos até levar uma bordoada na cabeça.
(continua no próximo post)
Obs.: Esse texto foi escrito em julho de 2008 e foi postado aqui no início do blog. Há várias coisas de que não gosto nele, especialmente essa grande explicação do penúltimo parágrafo, mas, por preguiça ou apego, não consigo reescrevê-lo. Ao comentar esse fato com a Pessoa Inteligente, ela lançou o desafio de que eu escrevesse um novo texto em que eu revisitasse a loja de experiências. Pois bem. Então eis a primeira ida à loja (dividida em duas partes - a II está aqui) para dar o fio da meada caso consiga ir lá uma segunda vez.
Ah, e é claro que a protagonista sou eu, rs, desde a bolsa a tiracolo (companheira dos tempos em que eu não tinha carro) até os melindres com a vendedora. Vai perdoando aí, que eu estava iniciando minha mutação nesse tempo.
:o)
terça-feira, 12 de junho de 2012
A hora das coisas
Porque meu caminho ainda não havia cruzado o seu, você me perguntou um dia:
- Onde é que tu tava?
A resposta que escondi por trás do meu sorriso:
- Tava me transformando na pessoa que você merece.
- Onde é que tu tava?
A resposta que escondi por trás do meu sorriso:
- Tava me transformando na pessoa que você merece.
tua Kel,
bjo bjo
bjo bjo
segunda-feira, 4 de junho de 2012
Onde está Wally?
Me deixa sacudir a poeira que cai sobre o blog sendo ligeiramente fútil? É que é a primeira vez que apareço no jornal, rs.
Esse casamento aconteceu no dia 28 de abril e foi tão lindo. Quase escrevi sobre ele, mas as reflexões que fiz por lá ou eram de ordem muito íntima ou poderiam expor outras pessoas, então fiquei quietinha. Digamos somente que ele me ajudou a enxergar o que quero para minha vida em certos aspectos. Isso foi muito importante para eu abraçar um presente que o casamento de outra amiga me daria duas semanas depois.
E eu tô me sentindo, ó. ;o)
terça-feira, 8 de maio de 2012
Ô coisa linda
É só para a gente sorrir, que é impossível não fazer isso no 1:18 do vídeo.
Um certo amigo diria que Tan Hong Ming está em estado de graça.
:o)
Um certo amigo diria que Tan Hong Ming está em estado de graça.
:o)
sexta-feira, 27 de abril de 2012
E aqui se encerra essa conversa de 30
É só pra postar as fotos, juro. Não tem mais chororô, nem lista, nem reflexão.
| Bolo da festa 1. Taí, meninas, mais uma foto em que sorri demais. |
| Compacto da festa 1. Faltou a vovó, que estava doente. |
| Foto preferida da festa 1. |
| Bolo da festa 2. Sorri demais. De novo. |
| Compacto da festa 2. Dá pra ver minha concentração ao cortar o bolo? |
| Prestes a cometer um bolocídio. |
quarta-feira, 25 de abril de 2012
O resultado do meu "se vira nos 30"
Todos se admiraram: "Trinta coisas inéditas em um dia é muita coisa!"
Era. Tanto que não deu, mas eu já desconfiava que seria assim.
Enfim, vamos ver a lista?
Trinta coisas inéditas para fazer no meu aniversário:
1. Fazer esta meditação. Para isso acordei 4h40 da matina e fui bater no aterro da Beira Mar.
2. Fazer trinta reverências (aquelas que a gente faz no Kyol Che) de frente para o mar. Decidi isso lá no aterro mesmo. Como não tinha proteção porque foi de improviso, ganhei de quebra uma esfoliação nos joelhos e cotovelos! Mas uma coisa bonitinha aconteceu. Quando sentei sobre os pés para fazer a última reverência, o mar avançou até onde eu estava. Era o convite para o próximo item.
3. Entrar no mar da praia do Ideal. Por sinal, apanhei foi muito das ondas, quase perdi o biquini, bebi água feito uma condenada (vai uma caixinha de Zentel aí?), mas foi bom. Realmente foi bom. Depois ainda peguei chuva enquanto caminhava para a casa dos meus pais, e foi melhor ainda.
4. Dizer "te amo" pro meu pai. Nunca fiz isso depois de adulta.
5. Dizer "te amo" pra minha mãe. Idem.
6. Dizer "te amo" pro meu irmão. Idem.
7. Fazer uma massagem relaxante.
8. Fazer uma blusa com os dizeres "24 de abril. Hoje é dia do meu aniversário".
9. Ter coragem de vestir a blusa. E vesti o dia todo, viu? Só tirei à noite para receber os amigos aqui em casa (e ainda coloquei de volta para tirar fotos, rs.)
10. Dar o transatlântico da Mariana Marques para a Pessoa Inteligente.
11. Cobrar o meu transatlântico, meu fanzine e meu Enrolados da Pessoa Inteligente. Detalhe que ela já tinha me devolvido todos os itens exceto o DVD. Aparentemente completar trinta anos já interferiu na minha memória.
12. Almoçar na Casa de Moá.
13. Ligar para a Lu. A Lu me conhece até pelo avesso, já que fizemos Básico e Avançado do Renascimento juntas e ainda um Kyol Che, mas eu nunca tinha telefonado pra ela. Beijo, Lu!
14. Usar batom vermelho. Foi sugestão da N. e topei o desafio.
15. Comprar um fogão. Finalmente!!! Mas confesso que enrolei. Isso aí eu fiz no dia 23, porque não queria voltar para o Centro no dia seguinte.
16. Publicar um poema. Vide este post.
17. Fazer o segundo furo na orelha. Só porque agora sou balzaquiana não quer dizer que não posso fazer algo que todo mundo faz na adolescência.
18. Comprar uma cesta de produtos Empório Body Store pra mim. E ainda ganhei outra de presente da V.!!
19. Impublicável. Mas fiz.
20. Fazer uma aula de dança de salão. Influenciada pelo G., resolvi tentar. Aprendi a base do bolero e dancei uma música. O instrutor se admirou da minha capacidade aqui e isso pagou o dia! ;o) Depois tive de sair porque faltavam instrutores para as alunas regulares.
21. Distribuir trinta chocolates para pessoas desconhecidas. Coloquei um Sonho de Valsa dentro de um saquinho de lembrancinha com um texto explicando a situação. A experiência foi interessante. Houve quem me olhasse com medo, mas tive feedbacks bem positivos. Um abraço para a moça do elevador no Del Paseo, para o moço que gosta de Chico Buarque, para as meninas da Pague Menos, se vocês calharem de passar por aqui.
22. Agradecer à minha família pelo apoio incondicional. Também burlei um pouco nesse item: fiz isso no domingo, quando nos reunimos.
E pronto, c'est fini. Ficaram de fora: 23. Tomar banho de sal grosso; 24. Fritar um ovo na casa da Bb.; 25. Ver o pôr do Sol no Zé do Mangue; 26. Pagar alguma coisa para um estranho; 27. Impublicável; 28. Impublicável; 29. Dar um certo presente para um certo amigo; 30. Fazer uma tatuagem. Ah, e as reverências no aterro substituíram o item "lançar ao mar uma garrafa com uma mensagem".
Vou confessar: houve momentos difíceis na execução dessa lista. O maior aprendizado que tirei foi que ainda dou muita (mas muita mesmo) importância ao que os outros pensam. Houve um instante em que consegui superar isso, e foi um sentimento muito libertador, mas infelizmente se tornou somente um vislumbre de como a vida pode ser bem mais feliz sem a tirania do olhar do outro.
Encerrei o dia na companhia dos meus amigos, e foi muito bom. Pode até ser contado como algo inédito: eu nunca havia comemorado meu aniversário no meu apartamento. Também nunca tinha cortado um bolo com uma faca de pão (ainda descubro que não tenho certas coisas aqui em casa: espátula de bolo é uma delas), nunca tinha dançado bolero ou forró com o G., nunca tinha recebido a G., a P. ou o S. aqui em casa...
E é isso. Beijo para todos que fizeram meu dia mais feliz.
E nem doeu, rs.
![]() |
| Essa sou eu trinta anos atrás. :o) |
Completei TRINTA ANOS. O dia foi interessante, rs. Tinha assumido um compromisso de postar o resultado da minha experiência em fazer trinta coisas inéditas, mas vai ficar para mais tarde, que hoje estou morta. Veja a hora desta postagem, tenha em mente que acordei às 4h40 da manhã do dia 24, e você entenderá a razão.
Não consegui fazer trinta coisas inéditas, não as da lista pelo menos. Meus amigos vieram aqui para casa e a gente brincou de ineditismos. Depois faço a contabilidade para ver se atingimos a meta. :o)
Ainda falta responder muitas mensagens no Facebook. Agradeço já o carinho de todos. Prometo que também faço mais tarde.
Beijo pra todos.
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